Quando o desejo nubla a percepção

Por: José Antonio Pereira

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A história que nos é contada pelo filme An education, que em português ganha o título de Educação, é bem demarcada no tempo e no espaço. Logo no início o espectador é informado por muitos índices de que o ano é 1961 e a cidade onde se passa grande parte da ação é Londres. O outro espaço urbano, que poderia ser representado pelo sinal gráfico do parênteses, é Paris. Ambas as cidades, cada uma à sua maneira, continuam formando eixo dos mais glamourosos na Europa.


O filme não diz explicitamente, mas sugere, numa linguagem delicada , inteligente e sensual, que o começo dos anos 60 representou marco de mudança de paradigmas, o que historicamente hoje se tem como fato. Pesquisadores lembram que a safra de crianças nascidas imediatamente no pós-guerra, no período a que se denominou baby boom, chegava ali à adolescência com traços bem diferenciados, quando comparados aos da geração anterior. Neste contexto, o modelo de mulher doméstica e domesticada, submetida ao marido que chefiava o lar, começa a ser posto em questionamento. Os arquétipos morais e ideológicos que haviam moldado as mentalidades até épocas imediatamente anteriores passam a ser contestados.


 Na moda, expressão que vai alcançando cada vez mais foro de arte, a londrina Mary Quant capta os anseios demolidores das moças que não queriam mais viver como suas mães nem se vestir como elas. Na música, quatro rapazes formam em Liverpool uma banda de rock sem jamais imaginar que o nome do grupo, Beatles, vai simbolizar modernidade, transformação, mudança de jeito de existir para milhões de jovens do mundo inteiro num futuro bem próximo.


Será necessário um pouco mais de tempo para que moças como Jenny, a protagonista de pacato subúrbio londrino, comecem a usar minissaia e sacudir o corpo no ritmo do rock. Mas toda a contestação apropriada pela moda e pela música já está fortemente marcada na sua personalidade. Ela canta Juliette Grecco escondida no quarto, cita os existencialistas para as colegas de classe, e procura desesperadamente fugir à vida tediosa à qual é destinada pelos pais- Marjorie, a mãe servil, incapaz de frase articulada com um mínimo de inteligência; Jack, o pai obcecado pelo pragmatismo e avesso a qualquer coisa que fuja da rotina. Sufocada por este clima, Jenny se oxigena no sonho de conhecer Paris, visitar museus, comparecer a concertos e frequentar leilões de arte, experiências que aos rígidos pais soa como algo absurdo, fora de propósito. De acordo com seus padrões, a filha deve estudar muito para conseguir uma vaga em Oxford. Ela realmente se aplica, é ótima aluna, reconhecidamente inteligente.E está disposta a enfrentar o grande desafio dos exames de admissão até que surge em seu caminho um homem mais velho e encantador, David, 35, com ares de príncipe, talvez de lord, em tudo contrário às pessoas com quem ela convive.


Os pais, Jack (Alfred Molina) e Marjorie (Cara Seymur), definem-se por suas opiniões muito rígidas e por uma estupidez inconcebível para quem aparenta ter 40 anos. Seria necessário acrescentar a estes traços a insensibilidade, para defini-los como pais difíceis em qualquer tempo. Outros personagens importantes são a professora e a diretora da escola de orientação religiosa onde Jenny estuda. Elas são o olhar lúcido que desvela rapidamente o tipo de atração despertada pelo homem que chega para revirar a vida da adolescente. Caberá a uma delas ajudar Jenny a se recompor e a crescer a partir da experiência desastrosa que viverá sob o manto diáfano do conto de fadas.


A cineasta Lone Scherfig é nome de expressão em seu país, a Dinamarca, e fez vários filmes importantes, um deles Dogma 95. O roteirista Nick Hornby tem muita experiência no mundo do cinema mas é fundamentalmente um escritor. É autor do conhecido romance Alta Fidelidade. Sua facilidade com as palavras levou-o a criar excelentes diálogos. Carey Mulligan, no papel de Jenny, alcançou desempenho expressivo, a ponto de ter sido indicada ao Oscar 2010 de melhor atriz. Nos papéis nada simpáticos que lhes foram destinados, Alfred Molina e Cara Seymour convencem como os obtusos pais. Mas é Peter Sarsgaard quem merece os maiores elogios, pela espontaneidade com que vive o sedutor David.


Ao antecipar tendências de comportamento e tomar atitudes que só se tornariam comuns pelo menos dez anos depois, Jenny mostra em Educação que há sempre um preço a pagar por nossas escolhas. Desta experiência que parece ser recordada como redefinidora, ela sai machucada, mas com importante lição aprendida: a de que nunca nos enganamos tanto como quando queremos acreditar em algo que desejamos com intensidade..
 
Serviço
 
Título: Educação
Gênero: drama
Diretora: Lone Scherfig
Roteiro: Nick Hornby
Onde: nas locadoras, em breve

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço

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