Como termina?

Por: José Antonio Pereira

“E daí?”


Parece até refrão de música sertaneja, mas foi a pergunta que ele se fez naquele dia de inquietude diante de sua própria condição. Filhos criados, razoável condição financeira, esposa dedicada, boa saúde. Todos estes componentes somados e mais, a expectativa da aposentadoria, o tornavam deprimido.


“Diacho, quantos gostariam de estar nesta condição e eu aqui atormentado.”


Resolveu sair. O dia estava convidativo, a temperatura agradável. Saiu sem destino. Tomou o primeiro ônibus que apareceu. Isto era inédito também, para quem estava acostumado com obrigações a cumprir, horário, roteiros determinados, o descomprometi mento era aterrador. Era um desafio? A ele vamos!


Sentou-se no primeiro banco. Perguntou ao motorista sobre o destino do veículo. Jardim Paraty foi a resposta. Não fazia a menor idéia de onde seria.


Desceu no último ponto. Rua deserta. Barulho de martelo e máquina de costura vinha das casas. Cheiro de almoço. Notou que estava com fome. Ia refazer a pergunta E d... Foi interrompido. De uma das casas, disparou uma criança, seguida por um cachorro. Na correria trombou com ele, estacou. O cachorro veio em seguida, latindo com o estranho. Os olhos vivos do menino cravaram nos dele.


“Moço está perdido?”


A eternidade de um segundo foi o tempo que ele levou para entender o tamanho de sua desesperança.


“Gosta do meu cachorro?” — Às vezes, as crianças são capazes de insondável sabedoria.


Sim, ele gostava. Não daquele cachorro, em especial, mas de muitas outras incontáveis coisas: de sua casa, dos filhos, dos amigos, das experiências adquiridas, do prazer de sentir-se vivo...


Aspirou todo ar que seus pulmões podiam suportar. Sabia a resposta.


Voltou para casa de táxi.


E aí? A vida começa aos 40, 50, 60,70... Quando termina? Isto não o preocupava mais!

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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