Brinquedos

Por: José Antonio Pereira

Com a mão direita, o velho levanta o chapéu e coça a cabeça.


 O gesto de preocupação é instintivo e passa despercebido da pequena multidão que transita, nesta manhã de sábado, pelo calçadão da Rua Marechal Deodoro entre as ruas Major Claudiano e Campos Sales.


- Bom dia, Sô Chico.


O velho está absorto por demais, por isso não ouve o seu nome e o cumprimento. Parece despertar para a realidade quando o cumprimento é repetido e acompanhado por mão que lhe toca o braço.


-Ah, pois não.


- Está tudo bem, Sô Chico ?


- Bom-dia. Sim, sim, está tudo bem. A jovem me conhece?
 

- Claro, Sô Chico. Sou a Jane Mahalem.
 

- Chico Franco, seu criado.
 

O homem leva a mão à aba do chapéu como se fosse descobrir-se e emenda.
 

- Se mal lhe pergunto, a gente se conhece de onde?
 

- Nós fomos quase vizinhos. Eu morei a vida inteira lá no Jardim Francano, na Rua Renato Reis Bueno. Sou a mulher do Amaral, o Eduardo Gabriel.


- Nossa. Virgem Maria. A menina me desculpa não ter reconhecido você. É que a minha vista está fraquejando...

Como é que pode, não reconheci a menina Jane. Peço mil desculpas.
 

- Que é isso, Sô Chico. É que faz muito tempo que a gente não se vê. O senhor está indo para onde?
 

- Não sei bem...
 

- Como?
 

- Eu preciso achar uma livraria. Já fui lá na Agência Brasil, mas lá não vendem livro mais não. Passei lá na Livraria do Comércio, falaram que fechou, não vai abrir mais não. Aqui na Livraria Martins não tem livro quase nenhum, só um pinguinho...
 

- Ah, o senhor queria comprar um livro?
 

- Pois é. O meu sobrinho faz anos esta semana, e eu queria dar um livro pra ele. Queria presentear com um livro do Josaphat Guimarães França.
 

- Que bom. O Josaphat foi um grande poeta.
 

A menina sabia que ele publicou só três livros? O resto ficou inédito. Publicou só O Pincel Daltônico, Profissão de Abismo e A Solidão Povoada. Depois que ele morreu a Academia Francana de Letras publicou O Sonho do Semeador. E só. O resto, uns quinze livros, está lá com a Dona Rita Coelho França, a viúva dele. O Josaphat não pode publicar seus livros. Os originais estão lá com a mulher dele... A menina não acha que as autoridades deveriam publicar os livros do Josaphat e também publicar o livro Este é o Canto da Minha Terra, do Antônio Constantino? Eles foram os melhores poetas desta Franca de tantos poetas. E os jovens de hoje não sabem disso. Se as autoridades publicassem esses livros, o nosso povo teria mais orgulho ainda da nossa terra. A menina não acha?
 

- Acho, é claro que acho.
 

- Então, fala isso no jornal. A menina é estimada, é importante. Se falar, às vezes alguém escuta.
 

- Sô Chico, eu estou impressionada é com a sua memória. Eu nem lembrava direito o nome do livro do Constantino.


-Ah, menina, a minha vista não anda lá estas coisas, mas a minha cabeça é muito boa. As pessoas até falam que eu tenho cabeça de elefante, não esqueço nadinha, guardo tudo.
 

- Que bom, Sô Chico.
 

- Se mal lhe pergunto, qual é mesmo a sua graça?
 

- É Jane.
 

- Chico Franco, seu criado. Eu peço licença pra me retirar. Tenho que ir andando, vou até lá na Estação da Mogiana. Eu moro atrás da linha do trem.
 

- Então, tchau Sô Chico.
 

- Adeus, jovenzinha.
 

A despedida do homem é acompanhada de ligeiro toque na aba do chapéu.
 

É gente demais, é burburinho demais, por isso ninguém ouve o som de uma bengala no piso, ninguém ouve o velho sussurrando versos, lembrando Brinquedos
 

....................................
 

Minha espingarda de pau,
Que há tempos o tempo mata,
Vem livrar-me do pirata
Que abordou a minha nau!

Meu barquinho de papel,
Vem desfazer esta ânsia
De retorno àquela infância,
Longínqua, tão sem tropel.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras