Os novos obesos

Por: José Antonio Pereira

Uma vez gordo, sempre gordo. Mesmo após um dramático regime para emagrecer, um ex-gordo permanece sempre gordo na maneira de falar, de andar, de dormir, de se comportar, de enfrentar a vida. A gordura não é só um revestimento físico. Ela acaba tornando-se estado permanente de espírito, verdadeira ideologia .


A gordura também é contaminante. De uns tempos para cá, tenho observado com muita satisfação que vários amigos meus foram se transformando em pessoas de muito peso e , consequentemente, muita projeção. O professor Paulo de Tarso Oliveira ( que já foi conhecido como “Magrão ) é um deles. O jornalista Realindo Júnior (que amargava a alcunha de “Cotonete “) é outro. O advogado Teo Maia que, vestido de terno branco e gravata vermelha, parecia um autêntico “telmômetro “, disse me que engordou 8 quilos e ainda está magro. Mas , sem dúvida, já caminha rapidamente para se tornar bem mais pesado do que o ar. Luís Cruz arredondou-se e, consequentemente, diminuiu o seu ímpeto revolucionário. Quanto aos médicos, deixo de citar nomes para não abalar a sua fama de rigorosos dietistas. Porém, não posso deixar sem registro a minha grande alegria em vê-los ( principalmente os cardiologistas ) saudáveis, rechonchudos, pescoçudos e barrigudos.


Hilárias são suas explicações para o inesperado ganho de peso. Uns dizem que largaram de fumar; outros que diminuíram o ritmo de trabalho; outros ainda porque se aposentaram. As explicações continuam as mais variadas e inverossímeis. Ninguém, ninguém mesmo, tem a coragem de declarar que engordou porque está comendo mais, bem mais. Comendo mais e melhor. Saboreando a comida, apurando o paladar, descobrindo novas formas de prazer.


Uma vez gordo, sempre gordo. Novos e antigos obesos têm suas estratégias de engorda. Há os que, na calada da noite, atacam as geladeiras e os armários. Outros amoitam chocolates nas gavetas do criado-mudo. Há ainda aqueles que , depois do expediente, procuram os botecos mais esconsos, empanturram-se de pastéis, coxinhas e torresmo e, ao jantar, depois de umas três garfadas, exclamam com a cara mais lavada: “Chega! Não posso engordar mais. “


Só os verdadeiramente gordos podem avaliar o sofrimento de um regime. Por isso, criam suas estratégias para burlá-los. A mais recente e engenhosa foi posta recentemente em prática por um amigo meu. No almoço, ao devorar um prato bem cheio de comida, levantou-se para buscar outro. Ao espanto dos comensais que o acompanhavam, ele justificou:


- É que o médico receitou-me um remédio que deve ser ingerido no meio da refeição...

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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