Imperador

Por: José Antonio Pereira

O velho, sentado num dos bancos de cimento que circundam a fonte luminosa, está absorto. Não percebe, pois, alguém se sentando ao seu lado.


 O recém-chegado aceita apenas por instantes a indiferença do outro. Logo, olha insistentemente para o velho e puxa conversa.


- O senhor também está esperando o banco abrir?


A indagação semelha campainha cujo som vem de longe, chega aos poucos, e desperta o velho.
- Hein? Ah!... é ... Bom-dia , pro senhor também.


O outro se surpreende com a resposta, fica entre constrangido e desconfiado. A necessidade de comunicação,porém, vence temores, ele continua a inquirição.
 

 O senhor é aposentado? Está esperando o banco abrir?
 

Ah, sou, sim... Não, não... Não estou esperando banco nenhum. Estou matutando... Matutando...
 

- Eu sou aposentado, vou ver se mudo de banco. Tem um banco lá na Avenida, é mais perto da minha casa.
 

- Eu moro lá perto da Estação da Mogiana, moro atrás da linha do trem. Mas todo dia eu caminho até aqui na praça.
 

- O senhor não vem de ônibus?
 

- Nunca. Não viajo de ônibus. Saiba, meu jovem: o coração do homem está nas pernas. Eu tenho muita saúde porque só ando a pé.
 

O interlocutor estranha o ardor do velho e se cala.
 

O velho, porém, continua.
 

- Estava aqui pensando... O jovem sabia que este prédio foi o primeiro prédio da cidade?
 

- Foi, é?
 

- Foi. O que tinha aqui era um casarão. É só olhar no quadro pintado pelo Arnaldo Barbieri que você vê. O quadro está lá na casa do Ricieri Dominici. Ele é meu amigo. Aí, derrubaram a casa e fizeram essa maravilha. Você sabe como o prédio é chamado ?
 

- Sei não.
 

- Chama Franca do Imperador. Eu lembro quando os tratores iam furando o chão e tirando terra. Fizeram um buraco enorme, de uns vinte metros de fundura. Tinha gente que ficava olhando pra ver se aparecia osso, porque diziam que o cemitério da cidade tinha sido aqui na praça.
 

- Aqui já foi cemitério?
 

 - Isso eu não sei, não. Tem de perguntar pro Chiachiri, o historiador. O que eu sei muito bem é que o prédio começou a ser construído em 1956 e parece que ficou pronto no dia 1º. de setembro de 1958.
 

- Nossa, como é que o senhor faz pra saber todas essas coisas?
 

- Ah, jovem, é que eu conheci muita gente que trabalhou aqui. O Sô Geraldo Amário é mais velho do que eu. Está com noventa anos e trabalha ali dentro até hoje, desde o começo da construção. O jovem Ataíde Marcelino também trabalhou ali. Ele começou por baixo, depois virou professor, agora é advogado.
 

- Nossa, o senhor sabe mesmo muita coisa, hein.
 

- Ah, eu já vivi muito, já vi muita coisa... Além disso, eu tenho cabeça de elefante, guardo tudinho aqui dentro.
 

- O senhor me dá licença, eu já vou indo. Está na hora do banco abrir.
 

O homem se levanta, caminha em direção à igreja matriz, mas o velho ignora a ausência, continua explicando.
 

- O engenheiro foi o Dr. Ari Balieiro, e os apartamentos foram vendidos pela Imobiliária Bandeirantes. Ela era de Ribeirão Preto, mas tinha filial aqui em Franca, lá na Rua do Comércio. Quem vendeu tudo aqui em Franca foi o Maurício Toffano. O segundo prédio construído em Franca foi o Prédio dos Bancários, lá na Estação. Aí, fizeram uma lei proibindo construir prédios altos na cidade...
 

Uma criança que brinca sob os olhos da mãe interrompe sua corrida, observa curiosa os gestos do velho e grita.
 

- O homem tá falando sozinho.
 

A mulher puxa o menino pela mão.
 

- Fala baixo, filhinho.
 

- É verdade, mãe. O homem ta falando sozinho.
 

Mãe e filho caminham em direção ao Relógio do Sol na manhã fria e cujo sol é nulo, como diria Fernando Pessoa.
 

 

Luiz Cruz de Oliveira
Professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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