O mundo é pequeno

Por: José Antonio Pereira

Dizem que o mundo é pequeno porque quem viaja acaba encontrando um conhecido no lugar mais distante e esquisito deste planeta, que está ficando cada vez menor. Apesar do avanço das tecnologias de comunicação, viajamos cada vez mais, a serviço ou a passeio.


Para provar o que digo, lembro um amigo da Universidade Federal de São Carlos, o Shimbo, que tinha uma teoria sobre os trabalhos de extensão dele: não podiam passar de 200 quilômetros de distância de São Carlos. Semana passada, ele estava em Porto Alegre. Na retrasada, em Recife. Ano passado, esteve em Ushuaia, lugar conhecido como o fim do mundo.


Uns dez anos atrás, eu me esfalfava subindo e descendo as ladeiras de Tiradentes, em Minas Gerais, quando me deparei com o Paulinho Milagres, um arquiteto que se formou comigo e que não via fazia uns quinze anos. Desculpado o trocadilho infame, são os milagres das viagens, estes encontros afortunados e fortuitos.


Por conta da universidade onde leciono, tenho viajado muito pelo sudoeste de Minas Gerais, com um grupo de pesquisadores de vários lugares. Noutro dia, para fazer um balanço destes trabalhos, reunimo-nos na casa do Augusto Valeri, em Ribeirão Preto, que fica bem próximo ao antigo Hotel Umuarama Recreio, defronte o campus da USP. O belo hotel modernista está, infelizmente, fechado e breve se tornará uma ruína. Uma pena, pois em seus tempos áureos, hospedava os grandes times de futebol que iam jogar em Ribeirão Preto, o Santos de Pelé e outros.


Na equipe, além do Valeri, há um outro arquiteto, o Normando Machado, de Carmo do Rio Claro. Conversa vai, conversa vem, ambos afirmaram ter se formado em arquitetura pela PUC de Campinas em 1981. Mas eles não se conheciam. Valeri foi buscar no fundo de um baú um amarelecido convite de formatura. Lá estavam os nomes dos dois formandos, espantoso o que quase 30 anos fizeram com a memória dos dois. No convite, também reconhecí os nomes das arquitetas Zezé Fuga e Fernanda Licursi, minhas amigas aqui de Franca. Nenhum dos dois sabia o que tinha acontecido com as duas.


Aliás, os tempos andam tão corridos que nem eu sei o que as duas andam fazendo. Houve um tempo, mais calmo, que nos encontrávamos todos, um grupo de arquitetos francanos, nos finais de ano, para comemorar e saudar a amizade, a alegria de viver e contar dos projetos para o futuro. Lentamente, o moinho da vida foi nos afastando todos. Zezé fez estágio comigo no início da década de 80, quando fazia as pesquisas para o livro Franca, itinerário urbano e, junto com o marido Munir, é minha principal fornecedora de camisas da Prudentina. A Fernanda, a arquiteta mais festeira que conheço, é filha do Zé Nogueira, amigo do meu pai. Quando foi que nos perdemos todos, nesta roda viva que é o mundo de hoje?

 

Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor               
 

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