Encontro com Mevlana

Por: José Antonio Pereira

Nunca mais regressamos inteiramente das paisagens inscritas em nossa mente ou gravadas no espírito naquela hora em que, solidão cósmica, sonhos antigos são cumpridos. Pois as cidades desconhecidas são como pessoas com quem nos encontramos pela primeira vez e abrem os braços e se entregam ao nosso anseio de abraço ou os cruzam e se recusam ao acolhimento que por alguma razão não querem ou não conseguem propiciar.


A turca e milenar Konya, no centro da asiática Anatólia, envolveu-me desde a tarde de chegada, desvelou-se-me até a manhã de partida, atapetou meus pés nas suas ruas que guardam lembranças de passos gálatas, capadócios, licônios, frígios. Da pequena e antiquíssima Iconium até a populosa Konya que tem hoje um milhão de habitantes, foi ocupada por cruzados e sultões, mudando de nome à medida que crescia em população e importância. Foi Qunia, Konieh, Koniah, guardando nas cavernas extra-muros vestígios de assírios e hititas em cada período de evolução. No primeiro século da era cristã recebeu o apóstolo Paulo, que nasceu não muito distante dali, em Tarsus, e era homem de muita coerência e coragem. Também viu crescer uma santa cujo nome e vida eu não conhecia, Tecla. E por volta de 1200, espantou-se com a força da palavra de um tal Mevlana, que reencontrei num museu que foi mesquita, escola, madrassa.


Bastaram seis segundos de olhar para se desencadear a sensação de surpresa e prazer, como se adentrasse uma dimensão diferente de tudo o que até então vira no espaço turco. Luzes, ornatos, vitrais, mil elementos, o movimento circular abolindo a segmentação, numa evidente expressão de coerência, hierarquia, harmonia, a traduzir sapiência. Diversidade sem unidade é caos e unidade sem diversidade é monotonia. A unidade estava ali, de forma transcendente, como estivera no pensamento deste sábio que junto a outro iluminado, Shems, ergueu os princípios do que seria a ordem dos dervixes, religiosos muçulmanos que desenvolveram uma dança rodopiante cujo objetivo era o contato com Alá, Deus.


Assistimos em Konya a uma cerimônia de dervixes, quase incompreensível para ocidentais. Mas se temos conhecimento da teoria, ficamos espantados com o nível de percepção alcançado por Mevlana e Shems. A proposta do Giro é integrar o ser com o Cosmo e seu Criador: mão esquerda estendida para a terra, a direita elevada ao céu, o corpo coberto por uma roupa branca que simboliza uma mortalha, os dervixes começam a girar lentamente, da esquerda para a direita, enquanto entoam trechos sagrados, pertencentes a um gênero literário chamado Poesia Sufi. Pois então; Mevlana não fora um profeta, conforme imaginei a princípio. Muito menos um sacerdote, como a história poderia sugerir. Tinha sido um filósofo e poeta, o maior de seu tempo, e escreveu versos imortais como estes que antecipam a teoria de Galileu, a de Darwin e a do do átomo:
 
 “ Vem/ Te direi em segredo/ Aonde leva esta dança // Vê como as partículas do ar/ E os grãos de areia do deserto/ giram organizados // Cada partícula/ feliz ou miserável/ roda apaixonada/ em torno do sol.”
 
(...)
 
 “ Desde que chegaste ao mundo do ser/ uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses/ Primeiro foste mineral/ depois te tornaste planta/ e mais tarde animal/ Como pode isto ser segredo para ti?/ Finalmente foste feito homem/ Com conhecimento, razão e fé/ Contempla teu corpo- um punhado de pó-/ vê como perfeito se tornou!”
 
Mevlana Jalaludin Rumi nasceu em 1201 para alguns biógrafos ou 1203 para outros, em território hoje pertencente ao Afeganistão. Mas os importantes insights ou revelações aconteceram em Konya, onde ele viveu até morrer em 1237.


A poesia filosófica de Rumi está presente no cotidiano da Turquia, aparecendo impressa em muitos objetos. Um de seus poemas é muito reproduzido e faz o turista de qualquer cultura refletir, ao menos por intantes. Chama-se Os sete princípios:
 
“Seja sempre como
– um rio para a generosidade
um sol para a misericórdia
a noite para os defeitos alheios
a morte para a cólera
a terra para a humildade
o mar para a tolerância
 
Principalmente seja o que você parece e pareça o que você é.”

 

Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
 

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