A ternura de um toque

Por: José Antonio Pereira

Você, leitor, tem algum amigo ou conhecido que já lhe queixou de estar sofrendo de tristeza, solidão ou depressão? De não se interessar mais pelos modernismos e tecnologias que a vida de hoje nos apresenta? Ou de julgar que todos estão com pressa e que não há mais convivência humana e fraterna entre as pessoas?


Como? Você é uma dessas pessoas?


Não há nada de estranho ou novidade nisto. Tenho escrito nesta coluna, já por mais de uma vez, sobre a pressa ou falta de tempo que as pessoas vivem dizendo ter. Pouco cumprimentamos, pouco trocamos confidências, pouco ouvimos as queixas do amigo...


No entanto, se o jovem, ou mesmo o cinquentão anda sofrendo uma espécie de solidão nesta verdadeira aldeia global, imaginem os velhos, os nossos idosos, parentes ou não! Nunca o mundo dispôs de tantos e tão sofisticados meios de comunicação, e nunca, em toda a história, o homem se sentiu tão só!


Mas os velhos, estes, parecem-me mais distantes que em qualquer outra época.


Lembro-me de que, quando criança, todos os velhos que conhecia eram tratados com reverência, com respeito, cuidado, amor e carinho. Afinal, eram eles os que haviam passado pela aventura que ainda haveríamos de enfrentar.


Houve um tempo em que eu brincava com a pele rugosa das mãos de minha avó materna, em que eu acariciava seu rosto, em que eu a beijava. Houve um tempo em que eu andava pelos jardins de mãos dadas com meu avô. Acho que essa aproximação, esse toque deve ter-lhes feito um bem imenso. Que misteriosa troca de energia deveria estar ocorrendo naqueles momentos mágicos!


Vejo pessoas tristes nas filas do banco, do ônibus, nas ruas, nas igrejas, muitas vezes no serviço. A vontade é de me aproximar e puxar uma conversa e tocar-lhes ternamente. Mas os “avanços” de nossa civilização alertam: esse tipo de conduta ou é próprio de um assaltante que se aproxima ou mesmo de um desmiolado. Daí, o evitar que alguém se aproxime, que um estranho fale comigo ou com meu filho e, principalmente, que alguém me toque.


Curiosa essa inversão de valores, não é mesmo?


Há um outro detalhe: quase todo mundo gosta de acariciar um bebê. No entanto, poucas pessoas acarinham, de bom grado, os velhos, embora eles precisem disso desesperadamente. Após o desaparecimento de parte da visão, parte da fala e parte das faculdades mentais, o sentido do tato permanece.


Se o toque é tão importante, por que não tocamos com mais freqüência os velhos e os solitários? Encaremos os fatos: os olhos de um velho são aquosos, suas mãos são magras e lembram garras, sua pele é seca, enrugada, fina e se rasga facilmente. Olhem bem no fundo do olhar de uma anciã e talvez entenda seu apelo: “Sinto-me tão só!Por favor, aperte-me minha mão!”


Talvez, por todos nós, ela tenha clamado por nossa mais profunda necessidade: a ternura de um toque.

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos
 

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