Dia de procissão

Por: José Antonio Pereira

O Santíssimo passava e muitos olhos o seguiam. Era procissão de Corpus Christi. Muitas preces se elevavam aos céus pedindo, agradecendo, louvando. O tapete tão fervorosamente decorado era desmanchado conforme o deslocamento dos fiéis. Ele permaneceu ali, parado, encostado no meio-fio da calçada.


Apenas um olho acompanhava a cena; o outro, fechado para o exterior, voltava-se para a efervescência interna. Vivera até então para seus deveres como cabia a um honrado homem. Família, trabalho; depois esposa, filhos, netos. Pouco estudo, sabedoria que se manifestava mais por atos que por palavras. Era um homem bom.
Lembrou-se da infância pobre, correndo atrás de bola, subindo muro do vizinho para colher a fruta mais bonita. As raras vezes em que ficava doente dizia: “Tô doente, mãe, já pode comprar maçã pra mim”.


Cresceu correndo livre pelos descampados da Ponte-Preta, em bando, junto com os irmãos e primos.


Cedo a necessidade obrigou a trabalhar. Mal alcançava o pedal da máquina de pesponto. Entretanto, a responsabilidade que o distinguia a era de um homenzinho. Viu crescer a indústria de calçados na cidade: Jaguar, Rui de Mello, Licursi, Samello, passou por todas elas aperfeiçoando seu ofício. Depois, quando as empresas terceirizaram o setor, enfrentou longos dias e noites adentro, para cumprir sua tarefa e garantir o sustento de sua família. Às vezes, aos sábados, depois de fazer algumas horas extras, gostava de “bater uma bolinha”, nos fundos de sua casa, no time do Guspim, “cada corridinha uma cuspida”.—dizia ele todo prosa.


Os anos desfilaram com alegorias, tristeza e alegrias, no ritmo da bateria da vida. Já não jogava mais bola. Os filhos cresceram, vieram os netos.


Guarda muitas histórias, saudades de outra época. Enxerga pouco, vê mais além. Parado ali faz seus agradecimentos e pedidos como qualquer outro indivíduo comum. É um herói anônimo, um vitorioso.


“O Povo de Deus feliz caminhava...”

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português
 

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