20 de janeiro de 2022

Franca

‘Na educação, nós precisamos de mais coração do que de razão’

São 52 anos dedicados à Educação. O amor pelo magistério surgiu na década de 60, em meio a alunos de uma escola rural, sem estrutura e sem muitos recursos.

Franca 18/10/2015

Com mais de meio século dedicado à Educação, a professora Maria Lídia não se cansa de inventar maneiras de tornar o aprendizado mais interessante e criou modernos métodos de ensino, como o Pluga Cuca
São 52 anos dedicados à Educação. O amor pelo magistério surgiu na década de 60, em meio a alunos de uma escola rural, sem estrutura e sem muitos recursos. Foi ali que nasceu a paixão por ensinar e, com ela, a vontade de fazer diferença na vida das pessoas. 
 
A professora Maria Lídia Borges Machado é daquelas que não desanimam nunca. Não consegue ficar parada. Hoje, ela  é a presidente da ONG Pedra Bruta, que, como o próprio nome sugere, ajuda estudantes das escolas públicas de Franca a lapidarem seus talentos e realizarem seus sonhos. 
 
Quem a vê sempre com um sorriso no rosto e a voz doce não imagina a força desta mulher. Foi a partir de uma iniciativa dela que a Escola Estadual “Lúcia Gissy Ceraso”, no Jardim Noêmia, se tornou uma realidade. Sem dinheiro público, apenas com a ajuda da comunidade do bairro, ela e seus colaboradores ergueram o prédio para atender a 314 crianças e adolescentes que eram obrigados a andar quatro quilômetros até a escola mais próxima para poderem estudar. “Nunca vou me esquecer da emoção que senti quando tudo ficou pronto e a diretoria de Ensino decidiu que a escola começaria a funcionar. Não sou daquelas que se acomodam diante da dificuldade, mas das que buscam soluções”. 
 
Ela também patenteou uma nova metodologia de ensino, o Pluga Cuca, baseada principalmente na autonomia do aluno na busca por conhecimento nas áreas de matemática e português, usando a tecnologia como ferramenta. 
 
Foi em 2013 que seu nome ganhou repercussão nacional. Apaixonada por tecnologia, ela desenvolveu um aplicativo de celular para facilitar o aprendizado de matemática: o “Tuim e o Fantasma”. “A ideia era acabar com o estigma de que aprender matemática é chato e cansativo”, disse. 
 
Maria ainda acredita no poder transformador da educação. “Para mim, o único caminho possível para resolvermos os problemas da sociedade hoje é o investimento na educação. Se a transformação não ocorrer pela educação, não ocorrerá por mais nada”. 
 
A senhora desenvolveu um novo método de ensino, que chamou de Pluga Cuca. No que ele consiste?
Tive a ideia de criar o Pluga Cuca na época em que os computadores começaram a chegar a Franca, por volta de 1984. Eu já tinha desenvolvido minha própria metodologia de ensino, baseada no lema “ensinar para aprender”, focada mais no aprendiz (não gosto da palavra aluno) que no professor. O objetivo foi despertar o interesse dos aprendizes pela busca do conhecimento e aproveitar as habilidades individuais de forma mais efetiva. Quando vi um computador pela primeira vez, pensei na hora “É esta máquina que vai me ajudar”. Os anos passaram e, então, percebi a necessidade de estarmos plugados e como a tecnologia pode ser estimulante para os aprendizes. Daí o nome Pluga Cuca. A metodologia está registrada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e está disponível online no site da ONG Pedra Bruta. O Pluga ensina os alunos a serem autônomos e a buscarem o conhecimento específico para a sua necessidade, utilizando a internet como ferramenta de aprendizado. Atualmente está disponível apenas para as disciplinas de português e matemática, mas estamos desenvolvendo a metodologia para as outras áreas do conhecimento. 
 
E esse método tem funcionado? Como despertar o interesse pelo estudo em alunos que vivem em periferias, em situação de risco e convivem com a falta de recursos e com a violência? 
Funciona sim. O que desperta o jovem para a vontade de estudar é o encantamento. Conheço muitos professores que encantam seus aprendizes enquanto ensinam matemática, por exemplo. O Pluga é assim. Ele torna o aprendizado uma experiência prazerosa. Ele mostra pro aluno quais são suas dificuldades específicas e como solucioná-las. Com o método, a pessoa pode estudar sozinha e de maneira divertida. 
 
Mas a realidade é que boa parte dos professores que estão na rede pública não consegue encantar porque estão desmotivado com baixos salários, falta de reconhecimento e de recursos. Como falar em encantamento diante desse cenário?
É preciso que os professores tenham consciência de seu trabalho, da importância do que estão fazendo e conheçam para quem estão dando aula. Eles precisam conquistar os alunos. Não é fácil ou simples. Depende muito mais da dedicação e criatividade que de recursos. É preciso oferecer o que temos de melhor para esses estudantes. Nunca tive grandes recursos disponíveis para ensinar, mas nunca me faltaram disposição e vontade de fazer a diferença na vida dos meus aprendizes. Para mim, mais importante do que passar o conteúdo exigido era que meus alunos aprendessem algo todos os dias. As dificuldades nunca foram um empecilho. Não adianta ficar reclamando do governo. É preciso fazer com que as coisas aconteçam. É preciso acreditar que é possível. Na Educação, precisamos de mais coração do que razão. 
 
 A ONG Pedra Bruta já existe há 17 anos. Nestes anos todos trabalhando com jovens das escolas públicas de Franca, que grande lição a senhora aprendeu?
Aprendi que é possível fazer diferença. Comecei em 1998 fazendo uma experiência com meu neto Felipe. Queria provar que era possível ajudar a desenvolver um aprendiz da rede pública que tivesse interesse em aprender. Fui garimpar esse estudante. Por isso o nome da ONG é Pedra Bruta, porque a gente lapida talentos. Depois, resolvi convidar mais um amigo do Felipe para participar e fui procurar um outro jovem de escola pública. Depois ainda acabei convidando mais um. Éramos o grupo dos cinco. Eu os orientava para a vida e para o estudo da matemática. Propunha diversão e desafios. Todos passaram a corresponder aos estímulos. Foram seis anos de estudo, falo que foi um laboratório. Resultado: todos foram aprovados em faculdades de Exatas. Foi quando surgiu a ideia de ampliar a experiência e surgiu a ONG. Hoje são 105 jovens da rede pública atendidos com aulas aos sábados, voltadas para o conhecimento em matemática, português, inglês instrumental e informática. 
 
A senhora dedicou boa parte de sua vida à educação e ao ensino. Na semana passada comemorou-se o Dia do Professor. Com tantos problemas enfrentados pela classe, ainda há o que comemorar?
Claro que há. Nós, professores, somos os sustentáculos do país. Ninguém chega a lugar nenhum sem passar pelos bancos da escola. Somos as pessoas mais importantes do País. Ninguém é mais importante do que um professor. Uma escola pode funcionar sem diretor, sem coordenador, mas não consegue funcionar sem professores ou alunos. Fiquei 28 anos na rede pública e sei do que somos capazes. Somos transformadores. Temos, sim, que comemorar.
 
Como a senhora vê o futuro da educação em escolas públicas?
Acredito muito na Educação. Nós estamos em um momento de resgatar. As pessoas precisam entender que se a transformação da sociedade não for pelo caminho da educação, não será por mais nada. Acredito no desenvolvimento e na mudança. Eu, se me permitir, quero encerrar com uma frase do filósofo Álvaro Vieira Pinto: “Educação é o processo pelo qual a sociedade forma seus membros à imagem e em função dos seus interesses”. Para mim, o interesse hoje da população como um todo é de que a escola pública possa ser mais próspera. Quando a gente faz as coisas para o interesse do outro, para melhorar o outro, acabamos por melhorar a nós mesmos. 


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