Monstruoso de qualquer jeito

Monstruoso de qualquer jeito

Os relatos variam de acordo com quem conta ou do dia em que acontece o depoimento. Independente das versões, o que se sabe é que eles se encontraram naquela noite de domingo, 24 de setembro.

Os relatos variam de acordo com quem conta ou do dia em que acontece o depoimento. Independente das versões, o que se sabe é que eles se encontraram naquela noite de domingo, 24 de setembro.

11/03/2018 | Tempo de leitura: 4 min

11/03/2018 - Tempo de leitura: 4 min

Deu nojo. Simplesmente não há outra forma de resumir o que aconteceu no Fórum de Franca, quinta-feira última, na audiência de instrução do processo em que Lauanny Viodres, Leonardo Cantieri e Ítalo Neves — acusados de agredir e queimar viva a comerciante Núbia Ribeiro — tiveram a oportunidade de apresentar suas versões para o crime. Foi um espetáculo grotesco. 
 
A história da tragédia todo mundo já conhece. Era setembro do ano passado. Núbia, dona de um pequeno brechó, tinha se relacionado tempos antes com Leonardo, um auxiliar de mecânico, namorado de Lauanny, estudante de direito. Núbia teria trocado mensagens com Leonardo no Facebook, o que teria irritado Lauanny. O casal brigou e Lauanny teria pedido a ele que “desse um susto” naquela que considerava uma rival. Leonardo então convidou Núbia para uma conversa. Era uma armadilha mortal. 
 
Os relatos variam de acordo com quem conta ou do dia em que acontece o depoimento. Independente das versões, o que se sabe é que eles se encontraram naquela noite de domingo, 24 de setembro. Núbia foi agredida, levada para um matagal, espancada e queimada viva. Depois, Lauanny e Leonardo foram se limpar. Planejaram como se livrar do carro da vítima e de seu celular, acionaram o tal de Ítalo para ajudá-los, passaram numa loja de conveniência para comprar bebidas, numa boca de fumo para pegar crack, e na sequência, foram para seu apartamento... dormir. O corpo de Núbia só seria encontrado na terça. O casal se apresentaria à polícia na quinta-feira, dia 28, quando a prisão preventiva já tinha sido decretada. Tinham ficado escondidos na casa de parentes em Minas Gerais.
 
A maior dúvida é se Ítalo participou ou não do assassinato propriamente dito. Ele nega e diz que só foi chamado pelo casal depois que a desgraceira estava feita, com o objetivo de sumir com o carro de Núbia. Há que se registrar que ele é o único que não mudou de versão desde o início. Lauanny e Leonardo a cada hora contam uma história diferente. Já tentaram culpar Ítalo. Na última quinta, preferiram responsabilizar um ao outro.
 
Pouco importa. Numa espécie de adicional de tragicidade, Lauanny e Leonardo parecem não ter se dado conta de que a distância que separa a pior da melhor versão que cada um deles apresentou para o crime faz pouquíssima diferença — se é que faz alguma. 
 
No pior cenário para Lauanny, ela, pessoalmente, mata a rival. Mesmo nesta hipótese, há distintas versões. Numa delas, Leonardo diz que Lauany estava escondida no porta-malas do seu carro. Núbia entrou no veículo. Em dado momento, Lauanny saiu do porta-malas e golpeou o rosto de Núbia duas vezes, que começou a sangrar. Ambos teriam levado Núbia até o matagal em Patrocínio onde seu corpo, ainda com vida, teria sido incendiado por Ítalo. Num depoimento anterior, Leonardo havia apresentado versão semelhante, com a diferença de que o esfaqueamento teria acontecido fora do carro, no Distrito Industrial. 
 
No cenário mais grave para Leonardo, o saldo não muda muito. Na versão que apresentou ao juiz Paulo Sérgio Jorge, Lauanny negou que tenha pessoalmente atingido sua rival, mas disse que estava ao lado do namorado quando ele teria golpeado Núbia com pedradas. E que ainda teria visto Núbia chamar pelo seu nome enquanto desfalecia...
 
Independente do que tenha acontecido — e o mais o provável, segundo a polícia, é que um homem tenha dado o golpe fatal — fica claro que tanto Lauany quanto Leonardo desconhecem o que sejam rudimentos de misericórdia ou compaixão. Se foi Leonardo quem golpeou Núbia a pedradas ou se foi Lauanny quem deu duas facadas, nada muda o desfecho — e o que veio depois.
 
De um jeito ou de outro, ambos foram comprar bebidas. Nenhum teve a menor crise de consciência diante daquilo que, alegam, foi o outro que fez. Arquitetaram um jeito para sumir com o carro e o celular. Foram para o apartamento que dividiam dormir juntos. Depois, fugiram e só se apresentaram quando já eram considerados suspeitos. 
 
Vamos admitir, por um instante, a tese da “inocente” Lauany. Diante do namorado que apedrejava uma jovem como ela, nem por um instante pensou em gritar que ele estava louco? Não agiu para que ele parasse com aquilo? De volta a Franca, não correu para a casa dos seus pais para pedir ajuda? Diante das buscas na manhã seguinte, não tentou correr para a polícia e narrar o que tinha acontecido? Não se incomodou, em nenhum instante, em dividir a cama com um assassino?
 
Vale o mesmo se a hipótese “aceita” é a de Leonardo. Jovem, forte, porque ele não tentou impedir a namorada quando ela partiu para cima de Núbia? Consumadas as facadas, por que não levou a vítima para um hospital? Por que não ligou para a polícia? Porque escondeu aquela que diz ser a assassina em seu apartamento? Por que fugiu com ela?
 
A resposta para todas essas indagações é uma só: porque nenhum deles vale nada. São escória, gente insensível, amoral. Deveriam passar o resto dos seus dias atrás das grades. Quem faz o que eles fizeram não merece segunda chance. Mas, no Brasil, é o que terão. Por mais severa que seja a pena de uma provável condenação, Lauanny Viodres, Leonardo Cantieri e Italo Neves estarão soltos, nas ruas, antes mesmo que possamos nos esquecer deles. Poderão envelhecer. Um privilégio que Núbia Ribeiro, que completaria 22 anos nesta segunda-feira, nunca vai experimentar.
 
Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
Deu nojo. Simplesmente não há outra forma de resumir o que aconteceu no Fórum de Franca, quinta-feira última, na audiência de instrução do processo em que Lauanny Viodres, Leonardo Cantieri e Ítalo Neves — acusados de agredir e queimar viva a comerciante Núbia Ribeiro — tiveram a oportunidade de apresentar suas versões para o crime. Foi um espetáculo grotesco. 
 
A história da tragédia todo mundo já conhece. Era setembro do ano passado. Núbia, dona de um pequeno brechó, tinha se relacionado tempos antes com Leonardo, um auxiliar de mecânico, namorado de Lauanny, estudante de direito. Núbia teria trocado mensagens com Leonardo no Facebook, o que teria irritado Lauanny. O casal brigou e Lauanny teria pedido a ele que “desse um susto” naquela que considerava uma rival. Leonardo então convidou Núbia para uma conversa. Era uma armadilha mortal. 
 
Os relatos variam de acordo com quem conta ou do dia em que acontece o depoimento. Independente das versões, o que se sabe é que eles se encontraram naquela noite de domingo, 24 de setembro. Núbia foi agredida, levada para um matagal, espancada e queimada viva. Depois, Lauanny e Leonardo foram se limpar. Planejaram como se livrar do carro da vítima e de seu celular, acionaram o tal de Ítalo para ajudá-los, passaram numa loja de conveniência para comprar bebidas, numa boca de fumo para pegar crack, e na sequência, foram para seu apartamento... dormir. O corpo de Núbia só seria encontrado na terça. O casal se apresentaria à polícia na quinta-feira, dia 28, quando a prisão preventiva já tinha sido decretada. Tinham ficado escondidos na casa de parentes em Minas Gerais.
 
A maior dúvida é se Ítalo participou ou não do assassinato propriamente dito. Ele nega e diz que só foi chamado pelo casal depois que a desgraceira estava feita, com o objetivo de sumir com o carro de Núbia. Há que se registrar que ele é o único que não mudou de versão desde o início. Lauanny e Leonardo a cada hora contam uma história diferente. Já tentaram culpar Ítalo. Na última quinta, preferiram responsabilizar um ao outro.
 
Pouco importa. Numa espécie de adicional de tragicidade, Lauanny e Leonardo parecem não ter se dado conta de que a distância que separa a pior da melhor versão que cada um deles apresentou para o crime faz pouquíssima diferença — se é que faz alguma. 
 
No pior cenário para Lauanny, ela, pessoalmente, mata a rival. Mesmo nesta hipótese, há distintas versões. Numa delas, Leonardo diz que Lauany estava escondida no porta-malas do seu carro. Núbia entrou no veículo. Em dado momento, Lauanny saiu do porta-malas e golpeou o rosto de Núbia duas vezes, que começou a sangrar. Ambos teriam levado Núbia até o matagal em Patrocínio onde seu corpo, ainda com vida, teria sido incendiado por Ítalo. Num depoimento anterior, Leonardo havia apresentado versão semelhante, com a diferença de que o esfaqueamento teria acontecido fora do carro, no Distrito Industrial. 
 
No cenário mais grave para Leonardo, o saldo não muda muito. Na versão que apresentou ao juiz Paulo Sérgio Jorge, Lauanny negou que tenha pessoalmente atingido sua rival, mas disse que estava ao lado do namorado quando ele teria golpeado Núbia com pedradas. E que ainda teria visto Núbia chamar pelo seu nome enquanto desfalecia...
 
Independente do que tenha acontecido — e o mais o provável, segundo a polícia, é que um homem tenha dado o golpe fatal — fica claro que tanto Lauany quanto Leonardo desconhecem o que sejam rudimentos de misericórdia ou compaixão. Se foi Leonardo quem golpeou Núbia a pedradas ou se foi Lauanny quem deu duas facadas, nada muda o desfecho — e o que veio depois.
 
De um jeito ou de outro, ambos foram comprar bebidas. Nenhum teve a menor crise de consciência diante daquilo que, alegam, foi o outro que fez. Arquitetaram um jeito para sumir com o carro e o celular. Foram para o apartamento que dividiam dormir juntos. Depois, fugiram e só se apresentaram quando já eram considerados suspeitos. 
 
Vamos admitir, por um instante, a tese da “inocente” Lauany. Diante do namorado que apedrejava uma jovem como ela, nem por um instante pensou em gritar que ele estava louco? Não agiu para que ele parasse com aquilo? De volta a Franca, não correu para a casa dos seus pais para pedir ajuda? Diante das buscas na manhã seguinte, não tentou correr para a polícia e narrar o que tinha acontecido? Não se incomodou, em nenhum instante, em dividir a cama com um assassino?
 
Vale o mesmo se a hipótese “aceita” é a de Leonardo. Jovem, forte, porque ele não tentou impedir a namorada quando ela partiu para cima de Núbia? Consumadas as facadas, por que não levou a vítima para um hospital? Por que não ligou para a polícia? Porque escondeu aquela que diz ser a assassina em seu apartamento? Por que fugiu com ela?
 
A resposta para todas essas indagações é uma só: porque nenhum deles vale nada. São escória, gente insensível, amoral. Deveriam passar o resto dos seus dias atrás das grades. Quem faz o que eles fizeram não merece segunda chance. Mas, no Brasil, é o que terão. Por mais severa que seja a pena de uma provável condenação, Lauanny Viodres, Leonardo Cantieri e Italo Neves estarão soltos, nas ruas, antes mesmo que possamos nos esquecer deles. Poderão envelhecer. Um privilégio que Núbia Ribeiro, que completaria 22 anos nesta segunda-feira, nunca vai experimentar.
 
Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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