24 de agosto de 2019

Franca

'Recuperamos a Santa Casa'

A menos de um mês de deixar o comando da Fundação Santa Casa, José Cândido Chimionato recebeu o Comércio para uma entrevista especial

Franca 20/01/2019 - Repórter: Marcelo Facuri
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Tínhamos uma dívida impagável e falta de credibilidade. Graças a Deus, conseguimos recuperar a Santa Casa e a credibilidade"
A menos de um mês de deixar o comando da Fundação Santa Casa, José Cândido Chimionato recebeu o Comércio para uma entrevista especial, em que abre o coração, fala com orgulho sobre o resgate da credibilidade da Santa Casa e aponta os desafios para o futuro. Após dois mandatos seguidos, três no total, Chimionato passa o gerenciamento do maior complexo hospitalar da cidade (Além da Santa Casa, a fundação responde pelos Hospitais do Câncer e do Coração e pelo AME - Ambulatório Médico de Especialidades), no próximo dia 14, para o seu atual vice-presidente, Tony Graciano. Apenas uma chapa está registrada para a eleição interna.
 
O presidente deixa elaborado o projeto para a construção de um novo hospital, com 400 leitos, orçado em R$ 280 milhões. O local escolhido é anexo aos hospitais do Câncer e do Coração. Emocionado, José Cândido não se cansa de elogiar o hospital que comanda há tanto tempo: “O francano pode se orgulhar de ter uma Santa Casa que não deve nada em tecnologia para nenhum hospital”.
 
 Desde o primeiro dia como presidente, até o momento atual, qual é a diferença mais visível? 
Nem se compara com hoje. Quando pegamos a Santa Casa, em 2008, o hospital vivia uma extrema dificuldade financeira. Tínhamos uma dívida impagável e falta de credibilidade. Graças a Deus, conseguimos recuperar a Santa Casa financeiramente e estruturalmente. Hoje, temos uma instituição que ultrapassa as fronteiras do Estado de São Paulo. 
 
Quais eram e quais são os números da dívida da Santa Casa?
Quando a diretoria reassumiu a Santa Casa, pós intervenção, a dívida era de R$ 22 milhões. E a dívida foi crescendo, chegou no final de 2013/2014, a R$ 54 milhões. Foi quando constituímos um Comitê Gestor. Houve uma reestruturação e fizemos o financiamento bancário de R$ 54 milhões, à época, e hoje, dos R$ 54 milhões, devemos só R$ 20 milhões e estamos pagando. E, de lá para cá, conseguimos equilibrar a situação financeira e, hoje, a Santa Casa, apesar de todas as dificuldades, que não são próprias nossas, mas de um sistema pessimamente financiado, que não paga exatamente os custos, estamos em dia com nossos compromissos.  
O senhor tocou em dois pontos: intervenção e Comitê Gestor. A intervenção foi um erro?
Brutal. Foi uma coisa desnecessária, uma violência cometida contra a instituição. Não resultou em nada a não ser na degradação moral das pessoas e na degradação física e moral da Santa Casa, também, pois, quando a intervenção chegou aqui, fala-se que a Santa Casa tinha problema, tinha uma dívida impagável de R$ 6 milhões, mas a Santa Casa estava bem estruturada. Quando saiu, a intervenção deixou uma Santa Casa quebrada, com R$ 800 mil de cheques sem-fundos na praça, não tinha pão, não tinha café para dar aos funcionários pela manhã. O hospital totalmente deteriorado. A intervenção foi, para mim, desnecessária, incompetente. Se eu pudesse, eu tiraria esse período da história da Santa Casa. 
 
E o Comitê Gestor?
Esse veio para somar. Vivíamos uma guerra de trincheira. De um lado, o Ministério Público; do outro lado a DRS (Diretoria Regional de Saúde); do outro lado, a Secretaria Municipal de Saúde/Prefeitura; do outro lado, a Santa Casa. E todos nós perdendo. O Comitê veio para quebrar esse paradigma. Quando todos estes entes públicos vieram para cá, entenderam que o problema da Santa Casa não era de má gestão, que aqui não era uma caixa preta, era uma questão só de financiamento. Se você gasta cem para produzir e recebe metade, como você consegue administrar? E fomos buscar recursos. Foi na Secretaria de Saúde, em São Paulo, a partir daí, criou-se um programa forte em termos de financiamento para a saúde, que foi o Santa Casa Sustentável, que traz um recurso muito importante. A Prefeitura passou a subvencionar parte do que nós produzimos a mais. Para você ter uma ideia, em 2013/2014, quando começou o Comitê, estávamos produzindo 27% acima do contrato SUS. Hoje, já passamos de 40%. E, se fosse olhar o contrato SUS, em termos financeiros, ele é uma linha reta, não muda. Então, se não houvesse a participação do Comitê, estaríamos hoje em uma situação complicada. Com o novo modelo de gestão, pudemos enxergar as melhorias e usar melhor os recursos disponíveis, não só financeiros, mas recursos humanos. 
 
Neste período, qual foi o maior erro e o maior acerto do senhor na presidência?
É difícil falar em maior acerto e maior erro, pois onde tem o ser humano, a gente está sempre suscetível a erros. Mas não diria que houve grandes erros, não. Talvez, erros do ser humano mesmo, uma tomada de decisão que você precisaria fazer e não fez. Mas acredito que os nossos acertos foram muito maiores que os nossos erros. Hoje, a gente está entregando uma Santa Casa moderna, reestruturada não só do ponto de vista de gestão, mas de equipamentos. Nós não temos, hoje, nenhum equipamento velho no hospital. Todos os nossos equipamentos são novos. Hoje, realmente acho que o francano pode se orgulhar em ter uma Santa Casa que não deve nada em tecnologia para nenhum hospital.
 
Durante  muito tempo a Santa Casa correu risco de parar o atendimento por falta de dinheiro. Esse risco existe ainda?
Esse risco vai existir sempre, enquanto tivermos o modelo de financiamento inadequado, como temos hoje. No entanto, hoje a gente observa é que as filantrópicas, como o caso da Santa Casa, mais especificamente, são olhadas de outra forma. Somos vistos como parceiros da comunidade. Hoje a população reconhece o valor da Santa Casa. Os parceiros estão atentos a isso. Não só o nosso gestor, que é o Governo do Estado, mas especialmente a prefeitura de Franca. Não há empresa que ela possa dizer que vá se perpetuar no tempo. A Santa Casa é a empresa mais longeva de Franca, quase 122 anos. Agora, risco de fechar, tem, se amanhã o país entrar em um colapso, você não vai ter recurso. Mas, antes de falar em fechar, precisamos falar em crescimento. Temos um projeto moderníssimo para a construção de um hospital de 400 leitos, perto dos Hospitais do Coração e do Câncer. Não estamos pensando em fechar a Santa Casa, e sim em ter uma instituição com um prédio moderno, onde agruparíamos todos os nossos serviços e facilitaria demais a logística. 
 
A ideia é transferir os atendimentos da Santa Casa, do Centro, para a Presidente Vargas?
Exatamente. Nós não teríamos nenhuma atividade hospitalar no prédio do Centro. Pensamos em um prazo entre cinco a dez anos para fazer isso e um custo estimado em R$ 280 milhões. 

Como conseguir o dinheiro?
Esse é o grande desafio. Já temos o projeto pronto. Precisamos encontrar uma forma de ter o financiamento público, sem precisar devolver (o dinheiro). Vamos bater no Ministério da Saúde e no Governo do Estado, vamos movimentar nossos políticos. 
 
O prefeito Gilson de Souza prometeu, em campanha, fazer um novo hospital. Em dois anos, não conseguiu tirar a promessa do papel. Qual é a dificuldade que o senhor acha que existe? Há espaço para dois hospitais com atendimento público em Franca?
Não sou contra o sonho do prefeito. Todo mundo tem o direito de sonhar, mas a gente tem dito o seguinte: porque gastar dinheiro em um hospital novo, se você pode, com muito menos, ampliar a capacidade da Santa Casa? Colocamos para o prefeito algumas propostas: que ele nos ajude a manter o financiamento, para que a Santa Casa possa continuar atendendo no volume em que ela vem atendendo hoje; que ele possa nos ajudar a buscar um investimento para nós ampliarmos a capacidade operacional do (hospitais) do Câncer e do Coração, com pouco investimento, poderíamos aumentar em 250 cirurgias eletivas mensais. Muito mais importante que investir na construção de um prédio, é você ter recurso de custeio. Construir não é difícil. O desafio é conseguir todo mês R$ 11 milhões, para manter o hospital aberto.
 
Atualmente, a Santa Casa comporta a demanda de Franca?
Se você for na Santa Casa, agora, você não vai ver nenhum paciente em uma maca no corredor, não vai ver nenhum paciente não sendo atendido com dignidade. Temos dado conta do recado. Temos um fator limitante, que é o nosso contrato com o SUS (Sistema Único de Saúde). Como o Governo não passa recurso novo e os preços aumentam, então, o Governo, a cada ano, tende a comprar menos serviços, com o mesmo recurso. Hoje, estamos atendendo 40% acima do contrato. Por exemplo, temos 262 partos/mês contratados, mas estamos fazendo 400. Diria que a Santa Casa está preparada para dar conta daquilo que a população precisa. Com pouquíssimo investimento, aumentamos nossa capacidade operacional. 
 
No ano passado, houve desencontro entre a Santa Casa e a Prefeitura sobre a liberação de verbas. O que aconteceu?
Vínhamos tratando com o Gilson sobre esse extra teto, que nós produzimos, mesmo antes de ele ser empossado como prefeito. Na fase de transição, apresentamos nosso projeto e ele se propôs a ajudar. Em 2017, ele encaminhou para cá R$ 12 milhões em subvenção. Em 2018, alegando dificuldades de caixa da Prefeitura, ele encaminhou R$ 7,5 milhões. Isso deu um furo enorme no nosso caixa; contávamos com esse recurso para pagar o décimo terceiro. Temos continuado essa negociação com ele. Há boas sinalizações. Já temos R$ 3,1 milhões aprovados. Estamos propondo um novo modelo de relação com a Prefeitura. Seria a prefeitura comprar, através de convênio, aquilo que a população realmente precisa. Aí, não teríamos aquela coisa de vem aqui, corre na Câmara (em busca de verbas). Temos um controle interno e sabemos tudo o que produzimos para cada município da região. Franca usa, em média, 85% dos recursos da Santa Casa.
 
 Como levar esse projeto, também, para as prefeituras da região?
Não encontramos ainda uma fórmula. Há que se ressaltar o funcionamento do contrato SUS. Você tem “X” procedimentos contratados. Aí, ele vem e distribui tanto para uma cidade, tanto para outra. Acho complicado, pois o Governo do Estado equalizou essa questão dos pequenos municípios. Recentemente, tivemos uma experiência muito exitosa com Rifaina. Ela fez um edital para comprar cerca de R$ 1,1 milhão em serviços médicos hospitalares. Participamos e ganhamos R$ 900 mil. Acho que isso dá muito mais transparência. Chega lá e diz: esse ano, a prefeitura comprou dois mil partos. Números palpáveis que você pode mostrar para a população onde está sendo aplicado o dinheiro dela. 
 
Como o senhor avalia a venda de serviços para a rede particular?
Acho que é uma saída muito interessante. Nós já vendemos. Do nosso orçamento, 51% são SUS, 23% são Governo do Estado, 17% são rendas que a Santa Casa obtém através de doações e prestação de serviços para terceiros, e 9% são da Prefeitura. Outra experiência no Brasil mostra que as Santas Casas que têm bom equilíbrio financeiro econômico são aquelas que trabalham 60% para o SUS, 40% para o privado. Para nós isso é impossível, pois o SUS consome 95% do nosso complexo. No entanto, temos muitas parcerias, com o Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), com o Hospital Regional, com a Unimed, com outros planos de saúde. 
 
Qual o desafio da Santa Casa para os próximos anos?
Seria construir o novo hospital. Mas penso, também, que um desafio é ampliar a estrutura de ensino, que está dentro da Santa Casa hoje. Nós já formamos aqui 12 turmas de médicos residentes, de médicos que se formaram em várias faculdades do Brasil e escolheram a Santa Casa para fazerem uma especialização. Hoje, temos cerca de 50 médicos no regime de residência. Temos convênio com a Unifran e o UniFacef, quando os alunos (de medicina) ficarão aqui, em regime de internato, a partir do quinto ano. Acreditamos que, em 2019, teremos cerca de 400 alunos das duas faculdades, fazendo estágio no hospital. 
 
Hospitais do Câncer e do Coração. Em cinco anos, o que mudou?
Construímos uma ala nova, de 64 leitos, que é um equipamento de saúde, que a gente pode dizer com orgulho que você não encontra em nenhum outro hospital, um ambiente tão acolhedor e estruturado, para atender o SUS. Incorporamos inúmeras tecnologias, como tomógrafo novo, ressonância magnética, melhoramos o nosso acelerador nuclear, com investimento feito pela população, de R$ 1,2 milhão. Também cedemos ao Grupo de Voluntários da Saúde, em comodato, uma área anexa ao Hospital do Câncer, de 700 m2. 
 
A Fundação Santa Casa gerencia o AME (Ambulatório Médico de Especialidades), destaque pela qualidade dos serviços. Como estender isso para toda a rede pública?
Eu diria que a única coisa que difere o AME da Santa Casa, é a forma de remuneração. O tratamento é o mesmo, embora aqui seja um hospital geral e lá um ambulatório. A Santa Casa trabalha 24 horas, com urgência e emergência. É um serviço de muito maior complexidade. 
 
Neste período como presidente da Santa Casa, o que mais emocionou o senhor?
São tantas coisas.... a maior emoção que posso dizer é o carinho que recebo do pessoal dentro do hospital. As pessoas têm um respeito muito grande por mim. Nossa equipe de diretoria, que nos apoia constantemente, e o sentimento do dever cumprido. Agora, onde mexe muito mais com o meu coração, é a ala infantil do Hospital do Câncer. Todas as vezes que vou lá, meu coração bate mais forte (disse, emocionado), em ver aquelas crianças passando por um tratamento pesado, mas, ao mesmo tempo, fico alegre em poder dizer que podemos dar esse tratamento aqui. 
 
 A posição do senhor pede algumas “brigas”. Tem alguma que o senhor se arrepende de ter entrado?
Não me arrependo de nenhuma delas. Não não briguei, no bom sentindo, por mim. Briguei pela instituição. É para isso que estamos aqui. Não fiz para magoar nenhuma pessoa. Fiz tentando o melhor para o hospital.


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