24 de agosto de 2019

Franca

Della Motta, o vereador peregrino: 'nós só precisamos do necessário'

Após um acidente grave, quando rompeu totalmente a tíbia e a fíbula, ainda no começo da sua carreira em São Paulo, ele se comprometeu a caminhar até Aparecida (SP) para agradecer pela cura.

Franca 10/02/2019 -
Policial militar respeitado, o também vereador Walmir de Souza Della Motta é um apaixonado pela peregrinação. Após um acidente grave, quando rompeu totalmente a tíbia e a fíbula, ainda no começo da sua carreira em São Paulo, ele se comprometeu a caminhar até Aparecida (SP) para agradecer pela cura. O acidente foi grave. No trajeto para de ajudar um colega de quarto a fazer um trabalho extra de segurança, foram atingidos por um ônibus na Avenida João Dias, na capital. Della Motta ficou preso nas ferragens e, como amigo desacordado no banco do motorista, se viu obrigado a quebrar o banco, sair do carro e rastejar pela avenida a procura de ajuda. No final, o amigo acordou, pediu socorro e Della Motta se viu internado, teve infecção hospitalar, colocou uma placa com dez pinos na perna e conviveu com o gesso por oito meses. Ele se recuperou, investiu na carreira, mas foram anos até que a peregrinação efetivamente acontecesse, assim como sua reconexão com a igreja Católica. Mas, depois da primeira aventura, ele não parou mais. Agora, são quase mil quilômetros percorridos e muitas histórias para contar.
 
A ideia de fazer a primeira peregrinação aconteceu quando você sofreu um acidente no começo da sua carreira policial em São Paulo. O que aconteceu?
Esse acidente foi em 1986. (...) Sou de família católica, nascido em Caconde. Daí foi quando pensei que se corresse tudo bem, eu iria para Aparecida. E depois vieram muitos outros problemas, passei por drenagens e muitos desafios. Eu era praticamente um atleta, corria, competia, jogava bola e minha vida mudou totalmente. Eu era cabo da polícia militar e queria crescer na carreira. Minha recuperação foi muito complicada. Fiquei 8 meses com gesso, depois vim a Ribeirão Preto, onde meu pai estava morando, fiz fisioterapia e foi quando, aos poucos, minha perna foi voltando ao normal. E foi passando o tempo. Neste período, eu havia abandonado as minhas crenças, a minha religião. Eu achava que não tinha uma ligação muito forte com o que eu fazia, por conta das ocorrências de alta gravidade. Então, eu fiquei de 84 a praticamente 2015 sem frequentar a igreja. Eu só ia a batizados e casamentos. Mas ficou essa questão de fazer o caminho até Aparecida. Em 2015 comecei a frequentar a Igreja Santa Edwirges, que tinha um grupo de peregrinos, 100% católicos. Foi quando fiz minha primeira peregrinação. 
 
Como foi entrar para a carreira militar? Você sempre quis entrar para a polícia? 
Meu pai é militar, mas eu não tinha muita pretensão de entrar na carreira militar. Tenho dois irmãos, a Jane e o Gérson. Os dois hoje moram em Ribeirão Preto. A minha irmã é professora e meu irmão tem uma oficina mecânica. Eu trabalhava no ramo de auto peças. E surgiu a oportunidade para entrar na polícia. Fiz concurso, passei e permaneci quase quatro anos como militar em São Paulo. Depois do acidente e da recuperação, consegui passar na escola de sargento em 1988. Aí, quando foi a classificação, resolvi vir para o interior. Minha pretensão era voltar para São João da Boa Vista, mais perto de Caconde. Minha família já residia em Ribeirão, para onde foram depois da aposentadoria do meu pai. Mas tinha um senhor, que estava logo depois de mim na classificação, que estava prestes a se aposentar e queria ir para São João. Eu não conhecia Franca, mas fiz a opção. A primeira cidade que trabalhei quando cheguei aqui foi Rifaina. Fiquei um ano comandando o destacamento lá. A cidade ainda não era a maravilha que é hoje. Era carente e muito desorganizado. Depois que conseguimos organizar, tirar onibus da praia e fazer um bom projeto. Em 1990 começou a escola de soldado em Franca e fui convidado a dar aula na escola. 
 
Daí não saiu mais da cidade?
Desde 90 aqui. 
 
Você fez direito da FDF?
Eu fazia faculdade de direito na FMU, em São Paulo, quando estava no Batalhão de Choque. Mas não consegui dar continuidade por conta do curso de soldado, que era integral, e tranquei a matrícula. Quando vim para Franca, prestei o vestibular e retomei o Direito. Fiz de 90 a 95.
 
Você também constituiu família aqui?
Casei, meus filhos nasceram todos aqui. Um nasceu na Santa Casa, um no Regional e o outro na Unimed. Os três em Franca. Cada um dentro de um hospital.
 
Quando começou a ideia de caminhar?
Eu tinha o sonho de fazer o caminho de Compostela e eu tinha que ir até a Basílica de Aparecida agradecer pela cura da minha perna. Eu acredito que, além da medicina, acho que houve também, pela minha recuperação, a minha fé. Eu tinha que agradecer, simplesmente isso. Eu nunca tinha ido até Aparecida do Norte, foi minha primeira vez e foi uma emoção única.
 
Foi em 2015? Você caminhando com o grupo da Santa Edwirges?
Esse grupo rezava demais. Cada um tinha um problema, mas a oração era constante. Andava, parava, rezava; Andava, parava, rezava. Todos os dias tinha terço e missa. E alguma coisa foi abrindo. Eu achava que eu faria o caminho pela superação. Eu treinei muito para ir. Mas descobri que não foi nada disso. Porque, o que melhora você para o outro dia, é o descanso, mas a oração conduz você a isso também. Eu estava muito bem preparado fisicamente, mas aí acontecem as bolhas nos pés. Quando você lê alguns livros, todos dizem que a reação do corpo e da mente reflete nos seus pés. Esse grupo tinha uma organização muito forte. A primeira hora da manhã ninguém conversa. Saía das pousadas, reunia o grupo, fazia a oração e saia para uma hora de silêncio. Ausência de palavras. Aquele momento em que cada um caminha sozinho. Foi aquele momento que foi abrindo a minha cabeça. Porque muitas vezes via caminhos maravilhosos e refletia: o que conduz a sua vida? Eu estava indo pela superação, mas o que conduz é a força, a fé, o ideal de chegar lá.
 
Vocês caminharam quantos quilômetros?
Saímos de Águas da Prata até Aparecida, são 316 quilômetros. Esse é o caminho original. Todos os outros reiniciam em Águas da Prata. Eram cerca de 15 pessoas que até hoje tenho como irmãos.
 
Essa primeira peregrinação inaugurou uma série de outras?
Em 2016 fiz (o Caminho da Fé) outra vez, com outro grupo. Também saindo de Águas da Prata e, em 2017, fui para Compostela. Fizemos o caminho primitivo. Mas o grupo não era tão homogêneo. Algumas pessoas só conhecemos no Aeroporto, na hora do embarque. Foi meu sonho realizado. Nesse caminho houve pessoas que sofreram fraturas, quem não conseguiu fazer. Lá, foram 324 km em 9 dias de caminhada.
 
Qual a grande diferença entre o caminho de Compostela para esse de Aparecida?
O caminho de Compostela é místico. Fazemos o caminho, vendo muito sobre São Tiago. Além de misturar a religião, a fé, a peregrinação, ele traz algo além. Você começa imaginar como que aqueles guerreiros fizeram aquilo (Segundo a lenda, o apóstolo Tiago Maior foi decapitado em Roma. Seu corpo, no entanto, foi levado de Roma para a região da Galícia, na Espanha, onde foi enterrado. Anos depois, um camponês teria sido guiado por estrelas até o túmulo de Tiago. Todo o caminho percorrido pelo camponês se tornou o Caminho de Santiago de Compostela, o Campo da Estrela).
 
O terreno lá é mais plano para caminhar que o de Aparecida?
Não. É íngreme com muitas pedras. Fizemos um trecho que até é fechado no inverno. Tem peregrinos que já morreram lá. É muito alto e, quando começa a nevar, as pessoas não conseguem sair. Não pegamos neve, mas pegamos muito frio e muito vento. Não tinha civilização, sinal de celular, nada. Nossa sorte foi que encontramos um abrigo e nos escondemos até conseguirmos um resgate. Nesse abrigo tinha um telefone de emergência, que usamos para pedir ajuda. Nesse dia andamos 47 quilômetros, porque perdemos uma parada antes de prosseguir, mas passamos direto. Ainda bem que o resgate surgiu porque, senão, teríamos que dormir em pé. Foi um momento de muito desespero. Penso nas muitas pessoas que ainda fazem o caminho raiz, que penduram redes e dormem nas árvores. É muito diferente.
 
Você disse que o Caminho da Fé é único. O que isso quer dizer?
Todas as vezes que você faz o caminho de Aparecida tem algo diferente. Eu fiz três vezes, sendo que uma vez eu acompanhei a turma a partir de Campos do Jordão, quando eu tinha voltado de Compostela. Agora, eu fiz sozinho. Saí dia 26 de dezembro de 2018 e cheguei dia 5 de janeiro de 2019. 
 
Qual foi a maior mudança que você sentiu na sua vida a partir das peregrinações?
Às vezes carregamos muita coisa, transportamos muita coisa. Nós não precisamos. Nós só precisamos do necessário. Além disso, a paciência. No primeiro caminho, aprendi a oração de Santa Teresa ‘Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta: Só Deus basta!‘ O que eu aprendi muito: o que é necessário para a nossa vida? O necessário é o que você consegue transportar. Se você carrega muitas coisas, elas vão atrapalhar o seu progresso. A vida ganha outros valores. Eu falo muito da minha profissão, por conta dela eu já tive confrontos armados. Como católico, na época isso era muito confuso para mim. Como eu poderia tirar a vida de alguma pessoa? Isso também me afastou da igreja. Hoje é mais claro para mim, mas o caminho foi importante para mim. Para me mostrar com clareza que, se a sua mochila for muito pesada, naquele primeiro dia, depois de 5 horas de caminhada, sua mochila vai ficar insuportável. Necessariamente você vai parar e selecionar só o que é necessário.
 
Você passou o Réveillon longe da sua família, fazendo o caminho até aparecida. Como é lidar com a solidão, como eles sentem a sua ausência?
Nós tínhamos o Natal para passar juntos e eu tinha que refletir muito sobre a minha nova função de vereador. Eu não estava conseguindo fazer isso perto de pessoas. Eu tive que fazer isso para refletir. Se eu assumi um cargo, se pessoas confiaram em mim, qual o retorno que estou dando. Fui fazer uma autoavaliação.
 
Essa parece ter sido a sua viagem mais difícil...
De todas, foi a pior. Emocionalmente. Chorei, chorei, chorei. Eu cheguei em Águas da Prata (ponto de partida da viagem) bem. Também sai bem, com uma garoa leve. No meio do caminho, desabou o mundo! No comecinho ainda, antes de Andradas, nos primeiro trinta quilômetros, eu parei e sentei sozinho pensando ‘o que eu estou fazendo aqui?‘. Sentei numa árvore, tomei um suco, peguei uma rapadura e passou um ciclista e se sentou comigo. Ele era de São José dos Campos e começamos a conversar até que eu decidi que tinha que seguir. Foram dois dias, de Águas da Prata, Andradas e Barra, com muito barro, muita chuva, o tênis encharcado. Foram os dois piores dias da minha vida.
 
E seu corpo?
A umidade fez bolhas no meu pé, tive uma infecção e fui tratando durante o percurso. Mas aí o meu emocional caiu muito. Eu tinha planejado um percurso tranquilo, para fazer em 13 dias. Não era para ter sofrimento, mas foi muito sofrimento. A ideia era dormir em todas as cidades. Minha mochila, mesmo com capa, molhou todas as minhas roupas o que dobrou o peso da minha mochila. E nada resolvia. Fazia tudo com o tênis, mas ele não secava e foi corroendo meu pé.
 
Na primeira noite seu pé já estava estourado...
Cheguei em Andradas, já tive que perfurar meu pé. Era previsto.
 
Não no primeiro dia?
Não no primeiro dia. Ainda faltavam quase 300 quilômetros para caminhar. Liguei ventilador para secar as minhas roupas e foi na hora que pensei em desistir. Estava muito complicado para mim. Mas na hora de dormir, rezei uma Ave Maria.
 
E no dia seguinte?
No outro dia, ainda assim, foi um dos piores dias. Eu peguei a serra do Lima, indo para Barras. Na serra, um calor insuportável, logo depois, desabou o mundo. De novo. Pensei ‘não é possível!‘. Eu tinha pendurado as meia na mochila, estava esperando secar o tênis, me recuperar. Não teve jeito. Parei numa igrejinha que tinha num vilarejo, tirei a capa de chuva que não estava me ajudando e continuei. Pouco tempo depois, passaram três carros por mim. Eu parei para evitar o barro, quando o motorista de um dos carros chamou: ‘Della Motta?‘ Três carros de Franca fazendo o caminho também. Conversamos um pouco e, mais a frente, eu passei por eles outra vez. Esse mesmo carro estava atolado no barro, precisou até de um trator para tirar. 
 
Em alguns trechos o barro estava alto?
Andei com barro no joelho. Tem um lugar, chamado Pico do Gavião, onde tem uma baixada. A água gelada batia no joelho e congelou meus pés. Cheguei numa pousada, no município de Ouro Fino, tinha ciclistas com a bicicleta quebradaà E a roupa não secava para continuar no dia seguinte. Foi complicado. E aí o choro me acompanhou por toda a caminhada.
 
Como foi chegar em Aparecida depois de tanto sofrimento?
Olha, eu estava meio grogue quando cheguei. Saí do Bomeral, estava tranquilo e, na hora que avistei a basílica de cima do morro, veio o choro outra vez. Falei ‘o que está acontecendo?‘, quando cheguei foi uma mistura de todas as emoções. Choro, risada, alívio, o cansaço que nem era cansaço mais. Eu me recordei quando eu cheguei em Paraisópolis, ainda a 160 quilômetros de Aparecida, quando a dona de uma pousada, a Dona Jandira, me falou que eu não tinha mais condições de continuar com aquele pé. Foi quando eu fiz uma bota de esparadrapos, fiz um escalda pés, drenei o pé, mesmo sozinho. Ainda assim, eu continuei. E cheguei.
 
Qual foi o resultado da sua reflexão?
Desta vez, a palavra que eu trouxe foi humildade. Resiliência também, mas vim muito na humildade. No caminho, parei numa pousada do senhor Agenor, descendo do Gomeral. Quando eu vi ele, as 6h da manhã - naquela noite eu tinha saído para caminhar mais cedo -, ele e a mulher me recepcionaram na pousada com um café da manhã maravilhoso. Daí foi quando pensei na palavra ‘humildade‘. Eu pensei que eu também tenho que receber as pessoas daquela forma, com humildade. Na primeira vez que fiz, eu pensei que a palavra era superação. Não era. Era fé. E agora, foi humildade.
 
E como entrou política nessa história? Por que você decidiu ser vereador?
Foi o seguinte. Eu aposentei em 2011. Eu dou aula na formação de vigilante, sempre gostei de trabalhar na área de segurança. Estava dando aulas no polícia militar, quando me convidaram para entrar para a política. Obviamente a resposta foi não. Eu nunca tinha me misturado com política. Depois, me chamaram pela segunda vez e eu recusei de novo. Da terceira, vieram com muitos argumentos. Precisavam de alguém para representar a PM, de alguém que tivesse aceitação dentro da polícia, nos soldados, cabos, sargentos e oficiais. E me escolheram. Daí eu resolvi. Mas depois que eu falei o sim, eu me arrependi.
 
Por que?
Os 20 e poucos anos que trabalhei aqui em Franca foram colocados em xeque. O que eu fiz? Minha carreira sempre foi elogiada. Mas, como candidato, é meu nome, não é a polícia. Aí pensei ‘e se eu tiver 100 votos?‘ Daí, entrei no ideal. Se eu tivesse mil votos, estaria realizado. Pensava que não seria eleito, assim, na primeira vez. Fui presidente do clube da polícia, mas sempre em outro setor. No dia da apuração, veio essa surpresa (2.220 votos). Não sei se é prêmio, reconhecimento...
 
E como tem sido a experiência, que fez, inclusive, você parar para pensar?
Inclusive já falei duas vezes que não voltaria para a Câmara Municipal. Mas sabe que a gente pensa que podemos resolver um monte de coisas. Eu falo na tribuna que vereador é um despachante, mas não é bem assim. Temos que repensar qual a função do Poder Legislativo. Se não tratamos o Legislativo como um Poder, nós mesmos menosprezamos o nosso papel. É importante esse Poder. É fundamental. Outra coisa, se não conseguimos criar leis, temos no mínimo que fiscalizar. Nossa cidade é muito grande, assim como é a nossa responsabilidade. Nós não podemos abandoná-la. Eu tenho um discurso, falando que se aquela cadeira está sem ninguém, temos que colocar uma pessoa que é competente, nossa amiga. Se não, naquele lugar vai sentar o inimigo. Aí de vez em quando, eu falo que não quero mais. Por isso, que meu discurso não está alinhado. Exatamente sobre isso.
 
Agora, depois da metade do mandato, o que você sente da sua atuação?
A esperança da população nessa Câmara renovou a Casa. Acho que nesses dois anos vai ter muito combate aqui dentro, vai ter muita cobrança. Nós, vereadores, não podemos ficar na inércia. O prefeito precisava ter o tempo dele, mas já teve o tempo dele. Não podemos ficar só em requerimentos. A cidade não pode. O prefeito pegou a cidade em um monte de dificuldades? Eu sei disso, acompanhei. Mas tinha que fazer algo diferente. E nós, vereadores, ficamos muito na inércia. Nós passamos muito a mão na cabeça do Gilson, o prefeito municipal. Vai chegar a hora da cobrança. Hoje, cada vereador tem que fazer uma reflexão. Nesse caminho que fiz, da Fé, pensei que deixei muito a desejar aqui dentro. Eu poderia ter feito muito mais. Eu poderia ter sido muito mais combativo. 


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