24 de agosto de 2019

Opinião

A volta dos maniqueus

Em se tratando de Brasil, parece que perdemos a capacidade de avaliar as diferenças sutis entre coisas similares

Opinião 12/05/2019 -

Maniqueu viveu no século 3, na região onde hoje se situa o Iraque. Ele acreditava ser o último de uma longa sucessão de profetas, que havia começado em Adão e incluía Buda, Zoroastro e Jesus. Ainda jovem partiu para a Índia, onde pregou sua mensagem que se pretendia universal, ecumênica, e como tal destinada a substituir todas as religiões. Ao contrário da maioria dos pregadores de seu tempo, registrou por escrito sua doutrina, à qual deu uma forma canônica.. Os seguidores do maniqueísmo eram chamados maniqueístas.

Como religião organizada, expandiu-se rapidamente, chegando às províncias ocidentais do Império Persa e, depois, ao Império Romano. Do Egito disseminou-se pelo norte da África, e ali chamou a atenção de um pagão, Agostinho, que se tornaria cristão e combateria o maniqueísmo, cujo pilar se sustentava numa filosofia dualista, segundo a qual toda salvação dependia do conhecimento da verdade espiritual. Como o grau de compreensão da verdade variava entre os homens, distinguiam-se nessas comunidades, onde o pensamento de Maniqueu imperava, os perfeitos e os imperfeitos. E tudo o mais estabelecia-se a partir de dualidades: luz e trevas, bem e mal, espírito e matéria, corpo e alma. Etc.

A seita, se podemos chamá-la assim, teve existência relativamente longa- perdurou até o século 13. Entretanto, se o aspecto religioso desapareceu de vez, a força da visão dualista da existência e do ser humano, que caracterizou o maniqueísmo, vai e volta na história da humanidade. Vivemos no presente, pelo menos em parte expressiva do Ocidente, experiências marcadas por esta ótica centrada em dois polos, do qual parece ser proibido escapar. Partidos políticos, ideologias, a vida cotidiana, a mais prosaica das manifestações sociais, a moda, algumas expressões artísticas e tudo o que vive e deriva do homem tem sido marcado neste nosso século pela dualidade. As redes sociais, a mais retumbante conquista da revolução digital, refletem com nitidez esse panorama e essa incapacidade de ampliar o pensamento, expandir horizontes, admitir fragilidades, entender que nem tudo na vida pode ser categorizado em apenas dois eixos. Nem tudo é preto e branco. Há uma vasta gama de cores e possibilidades no mundo.

Em se tratando de Brasil, perdemos a capacidade de avaliar as nuanças, a diferença sutil entre coisas mais ou menos similares, os matizes que estão na gradação de tudo. No âmbito da política, só para citar um exemplo, aquele que faz uma crítica ao governo Bolsonaro, é visto como defensor de Lula; e quem critica a história do petismo é automaticamente diagnosticado como reacionário. O ponto de vista de um “amigo” do Facebook pode virar pomo de discórdia a deflagrar pedradas e açoites verbais. Uma opinião sobre um filme, artista ou simples notícia é capaz de suscitar respostas medonhas se o internauta não concordar com o que lê. Sob tal aspecto, mas não apenas, leitura genuína e generosa, da vida e do ser humano, é uma raridade. Porque isso pressupõe entendimento de que não há apenas dois lados no humano e suas manifestações. Há muitos lados, múltiplas facetas, incontáveis visões de mundo. Essa a nossa riqueza no planeta de um pequeno sistema pertencente a uma das milhares de galáxias do universo.

Deveríamos viver com mais plenitude e pluralidade, dialogando de verdade, conscientes de que o maniqueísmo não leva ao progresso nem à evolução, porque se há luz, ela nasce é da discussão saudável, onde os dois lados se ouvem.
 



COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

VER MAIS