24 de agosto de 2019

Nossas Letras

Binonna Lucia, Zia Rachel e Nonna Calogera

Nossas Letras 09/06/2019 - Repórter: Lúcia Helena Maniglia Brigagão
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Calogera Sansoni Gaspardi, filha de Lúcia Gaspardi e Giovanni Sansoni, ambos de Veneza, Itália, nasceu em Franca, em 18 de julho de 1898. Era magrinha, altura média, olhos profundamente azuis, sorriso calmo, voz segura mas baixa. Era minha avó paterna. Era a vovó Lila. Talvez a geração anterior soubesse, mas a dos netos não foi capaz de descobrir a origem de tão doce apelido. Seus pais saíram de Veneza para Santos em 1889, em um dos primeiros navios que, provenientes da Itália, traziam imigrantes para substituírem os negros nas lavouras de café, tão logo a Abolição da Escravatura foi decretada. O mercado de trabalho italiano estava ruim, esperavam encontrar trabalho aqui. João, de mais ou menos 30 anos, continuou como pedreiro, profissão que já exercia na Itália. Lúcia e sua cunhada Rachel Bruzandim Gaspardi, de 24 anos, viúva de Antônio Gaspardi, montaram casa de secos e molhados onde vendiam arroz, feijão, farinha, cebola, açúcar mascavo, ovos, banha de porco, doce de amendoim, etc. Compravam diretamente de atacadores e revendiam os produtos na loja que funcionava das 6h às 21h, todos os dias, inclusive sábados e domingos. Lúcia e Raquel ainda produziam pão d’água, cuja massa era feita à noite. Assados na madrugada, eram postos na carroça e vendidos por Giovanni, que saía pela manhã, às 6 horas, para entregar o produto fresquinho de massa muito melhor que as atuais, assado em forno de lenha. Fecharam o armazém quando já bastante idosas. O café da manhã de Lúcia e Raquel era polenta frita, com vinho. E foram longevas. Lúcia faleceu com 86 anos e Raquel com 84, exatos vinte dias após a morte da cunhada. Acredita-se que a morte de uma, apressou a morte da outra. Calogera (Lila) nasceu em Franca, nove anos após a chegada de Raquel, Lúcia e Giovanni a Franca. Quando completou 19 anos, encontrou Nicola Maniglia, de 24 anos, filho de Vitantonio Maniglia (de Montesano Sulla Marcellana, Napoles) e Rosa Monica, La Greca. Casaram-se em 25 de abril de 1917. Nasceram-lhes Ana Elvira, Nicola, Roberto, Alzira, Nair, Luís, Adolfo, Agostinho Sansoni e Adriano Sérgio. Alzira e Nair tiveram poliomielite quando muito crianças e ficaram cerca de dezoito anos na cama, sem andar ou falar. Vovó Lila cuidou delas com esmero, sem nunca demonstrar revolta. Fez o primário no Colégio N. Sra de Lourdes, tinha letra muito bonita e era ótima na confecção de massas. Não fazia doces, nem biscoitos. Nunca deu uma palmada nos filhos, mas quando aqueles seis brutamontes brigavam, ela se defendia... desfalecendo. Era água na fervura! Quem herdou sua habilidade na confecção de raviólis foi tia Filinha, esposa de tio Roberto. Não me lembro de Nonna Lucia, nem de Zia Rachel. Mas tenho primas gêmeas que levam seus nomes, outra de nome Calógera e outra ainda, chamada Lila. Todas elas carregam com orgulho os nomes de suas ancestrais. 



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