24 de agosto de 2019

Nossas Letras

Obrigada, Anjos!

Nossas Letras 09/06/2019 - Repórter: Sônia Machiavelli
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Já encontrei muitos anjos na minha vida. Mas nenhum deles tinha a forma etérea dos que são descritos em livros sagrados. Alguns estavam até sujos de graxa, como um que entrou debaixo de carro que eu atropelei quando tinha cinco anos. Ele me puxou cuidadosamente pelos pés, para que meu corpo frágil não se esfolasse tanto contra o asfalto. E enquanto fazia isso falava de forma mansa, porque adivinhava o quanto eu estava assustada.

Outro apareceu pouco depois disso, mas usava terno e gravata, e tinha um grande guarda-chuva negro, com o qual me abrigou, carregando-me no colo enquanto eu ia indicando entre lágrimas o meu endereço, de forma tão confusa que o fiz dar muitas voltas inúteis desde a Matriz, onde numa procissão havia me desgarrado da mão de amiga de minha mãe e saído correndo feito doida no meio de um temporal repentino.

Sob forma feminina um deles esteve a meu lado quando escolhi cadeira em São Paulo. Quase todo mundo tinha sido chamado, mas meu nome não saía da boca que convocava; entrei em pânico, via o auditório esvaziando e eu ali. Jovem professora, aguardando ao lado, notou minha aflição e olhando nos meus olhos falou: “calma, já vão chamar, respire fundo...”O som daquela voz serenou minha alma. Fui a penúltima. Ela, a última. Imagino que estivesse também apreensiva, mas sua generosidade estava muito além do meu narcisismo.

Nas ruas, nas tempestades, em edifícios- eles estão em todos os lugares. Até nas praias. Um de olhos claros e muitas rugas encontrei faz uma década, depois de assaltada em andança matinal. Sem lenço, documento, celular, chaves, só de canga, fui acolhida por ele que me fez entrar em seu quiosque, estendeu-me um copo com água doce, depois pediu à nora que me levasse ao lugar distante onde eu estava hospedada.

E houve uma vez um ciclista. Véspera de Natal, movimento grande, eu manobrava o carro para sair do Shopping quando o moço parrou ao meu lado e fez sinal indicando que havia alguma coisa errada. Desci, olhei e vi minha carteira que entre outras coisas guardava documentos importantes. Para acomodar sacolas nos bancos, eu a havia colocado sobre o capô e na afobação me esqueci . O anjo sorriu e pedalou, minimizando o favor que me fizera.

Anos atrás, viajando sozinha, e carregando uma mala pequena mas desajeitada, descia com dificuldade longa escadaria que ligava uma plataforma a outra, em aeroporto desconhecido. Com artrose a me atormentar, lastimava a sorte quando apareceu, como em passe de mágica, moça de expressão séria . Sem nada dizer, pegou na alça, desceu uns trinta degraus e parou lá embaixo, me esperando. Entregou-me a mala e sumiu em sentido oposto ao que tomei, mantendo a intrigante mudez.

Recentemente, numa dessas situações onde a burocracia brasileira desafia nossa paciência e devora o nosso tempo de forma cruel e exasperante, vi surgir à minha frente funcionária afável, desarmada e risonha que foi me sugerindo caminhos menos tortuosos dentro do bunker opressivo. Ela não precisaria fazer o que fez por mim. Terá intuído que eu vivia um dia muito difícil?

Nunca soube os nomes desses anjos. Mas seus rostos ficaram marcados de forma indelével em minha memória. Quer dizer, ficarão. Para sempre.

  



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