16 de junho de 2019

Nossas Letras

O Valente

Nossas Letras 09/06/2019 - Repórter: Janaina Leão
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Ele era antes de tudo violento, desde criança. Nascido em família abastada não soube o que era frustração.

Mamãe e papai de Valente lhes deram de tudo, menos limites: foi assim que ele espancou sua esposa até a morte, na frente do filho, por ela ter-lhe contrariado numa ordem.

Para Valente lugar de mulher era cozinha, tanque, igreja, curso de corte e costura ou bolo e, claro, cumprindo as obrigações de fêmea na cama, quando ele assim desejasse. O avô dele fora assim com a avó, o pai com a mãe e ele repetia o comportamento com a esposa:

– Oras!!! É assim que foi, é assim que é, e sempre será! – dizia ele: é o “normal” desde que o mundo é mundo.

Valente sempre dizia à esposa que homem bom era ele que botava comida na mesa e protegia a família, saco roxo que era. Ele só não sabia – ou fingia não saber – que a maior ameaça para a família era ele mesmo.

Certo dia Dandara, esposa de Valente, não se conteve e se negou a cumprir seu papel de fêmea. Estava muito magoada e ainda machucada da última surra...Também por encontrar nas coisas de Valente, provas evidentes de que ele não só saía com outras mulheres, mas também com homens, travestis, menores de idade.

Estava explicado para ela que nem era psicóloga – o porquê do marido reprimir tanto o filho por querer fazer curso de Teatro:

_ Isso é coisa de viado!!!! Sua Bicha!!!!! Você é mulherzinha? Vai pôr roupa de mulherzinha, vai? Vai passar batom também, sua bichinha???

Pois bem: Dandara disse NÃO!

Ela foi espancada das 23 horas às 7 da manhã do outro dia, com intervalos apenas para o Valente fumar seu cigarro e descansar os braços.

Ela foi açoitada, e ele quebrou todos os dentes dela...amarrada a uma cadeira.

Ele era Valente, não era?

Ao final da surra assassina, ele disse :

_Só não te bato mais porque você não é homem!

E Dandara murmurou baixinho:

_ Acabou...

Valente toma banho e vai para a academia malhar os músculos. Por uma “boa ação” ele solta a mulher das cordas e a deixa ali estendida. Também porque disse que queria o almoço na mesa assim que chegasse.

Dandara espera a porta se trancar à sua frente e se arrasta até o quarto do filho, verifica se está tudo bem com ele e o acalma dizendo:

_ Estamos livres, filho! A mamãe não terá o mesmo rosto de sempre e poderei sorrir sem dentes, mas seremos felizes! Só você e eu. E você jamais será como seu pai.

Dandara morreu mesmo naquele dia. Sete anos depois, nasceu outra, que está neste momento aplaudindo de pé o final de um espetáculo. O filho sorri do palco para a mãe, que recuperou todos os dentes e a alegria de viver. A seu lado está sua esposa Marielle, se conheceram num grupo de apoio a mulheres que sofreram violências, e se descobriram bissexuais. Casaram, juntaram os filhos e hoje se cuidam mutuamente.

Valente ficou sozinho.

Dandara lhe metera uma medida protetiva em que ele não podia chegar nem perto dela ou do filho. Dois anos antes do espetáculo, Valente apanhou de três caras numa briga de bar e em seguida veio um quarto e lhe deu três tiros no meio da testa. Desfigurou o cara, viu. Foi feio. Mas...ele era Valente, não é mesmo? Disseram por aí que foi dívida de jogo.
 



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