22 de julho de 2019

Opinião

Precipitação

Opinião 21/06/2019 -

Familiar próximo, ao realizar antigo sonho de visitar países europeus, começou pela Holanda, em busca da arte flamenga, das pequenas pontes. Chegaram tarde, deixaram a pouca bagagem em hospedaria confortável, alugou bicicleta para ele e o filho, e saíram à cata de aventuras. Fascinados pela beleza das construções, das pessoas, do entorno, não perceberam o adiantado da hora e, quando encontraram bar de freqüentadores animadíssimos, embora fosse horário nada convencional, não tiveram dúvida e acabaram por entrar. Música, ensurdecedora, bem ao gosto do coroa e do jovenzinho... Ambiente iluminado por luzes piscantes vermelhas - lembram-se que tocava I Will Survive e que Gloria Gaynor cantava a plenos pulmões a música-hino gay, por excelência. Entraram, sentaram-se, pediram cerveja, estavam se divertindo. A diferença de gerações deu lugar a grande curtição, achavam a noite maravilhosa, sentiam-se meio que cúmplices diante daquela sequência de inusitados que só viajantes sortudos conseguem desfrutar. De repente a magia foi quebrada. Sentou-se à mesa, sem convite para tal, uma pessoa claramente em busca de divertimento de diferente etiologia daquela que eles buscavam. Insinuou-se e, diante do espanto dos dois perdidos naquela noite, apontou para um e para outro, deu sorriso maroto de entendimento, que logo perdeu... O pai, no seu pequeno mas eficiente inglês, travou o seguinte diálogo com o entrão: “Hi! ó, I´m his father - e apontou para si mesmo. Em seguida, apontou para o filho e prosseguiu, indignado: “He is my son!”, morou?”... O cara percebeu que havia cometido erro grosseiro de julgamento antecipado e sem motivo das atitudes alheias. Foi embora muito sem graça.

Mas não apenas em Amsterdã acontecem esses erros de interpretação, juízos de pré-julgamento descorteses, sem sentido, indecorosos, toscos e grosseiros, que demonstram falta de cultura, civilidade e finura. As cabeças das pessoas andam repletas de porcarias e elas não hesitam em verbalizar o que lhes vai pelos cérebros de dois neurônios. Imagine turma de dez amigos de muito tempo, que passaram suas adolescências juntos, que estão encontrando suas companheiras e estão se casando. A maioria está noiva, nenhum avulso, todos comprometidos. Apenas um casal tem filhos. Dois, uma menina que é a mascote e amada por todos e um menino, que ainda não anda, nem fala. Recentemente o padrinho da menina esteve na cidade e, a pedido dela, foi quem a levou para a aula de natação. Mas não foi sozinho: carregou outro da confraria com ele, porque sabia que, como a tarefa é a tipicamente materna, ficaria sem graça entre as mães das nadadoras mirins. Pois não é que uma das iluminadas, ao ver os dois amigos no desempenho do papel de cuidadores, cuscuiou (expressão de minha avó) até descobrir que um dos rapazes era padrinho e não teve cerimônia: imediatamente entrou em contato com a mãe da menina e a cumprimentou “pela ousadia e modernidade de ter escolhido casal gay como padrinhos da filha”.

Será que a madaminha não tem coisa melhor para fazer, que tirar conclusões erradas e sujas do que vê?

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora
luciahelena@comerciodafranca.com.br  



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