20 de julho de 2019

Nossas Letras

Corram crianças, corram!

Nossas Letras 07/07/2019 - Repórter: Ligia Freitas
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A partir de hoje vou tirar sua comida, você precisa emagrecer.

Alguém já definiu suas necessidades emocionais e fisiológicas por você?

 Alguém já te pediu para desempenhar aptidões no susto, simplesmente porque o tempo parece favorável lá fora?

Mas e o tempo aí dentro de você?

Estou a falar de um assunto corriqueiro entre nós mães, uma competição desenfreada por um troféu que se chama DESFRALDE.

Estou a falar de um fenômeno atual que se chama: “encurtamento da infância”, promovido por uma necessidade voraz de nós pais de palparmos o crescimento dos nossos filhos.

E a frase “Run Forest Run” do fime “Forest Gump” não me sai da cabeça. Gritamos todos os dias no inconsciente dos nossos filhos:

-corra filho, corra.

Que ele pare de chorar, que ele comece a saborear os alimentos, que ele ande logo, ou talvez corra antes mesmo de andar, ou talvez ande antes mesmo de engatinhar.

Que ele fale, sem nem mesmo saber balbuciar.

Que ele segure o xixi e o cocô, porque lá fora faz calor.

Que ele se alfabetize, porque é gênio, sim senhor.

É, estou a falar da impaciência dos adultos, de um lado, e da ruptura da sensação pertencimento das crianças, de outro. A pergunta que não quer calar é: as crianças têm suas características peculiares respeitadas?

Nas escolas há o desfralde coletivo. Ei, vocês são todos iguais e têm o mesmo desenvolvimento, então a partir de hoje devem ficar sem fralda.

Nas casas há o desfralde impositivo. “Meu filho, você já está um menino grandão, então a partir de hoje não usará mais fralda, porque estamos no verão”.

Em ambas as situações, estamos dizendo que quem conhece o corpinho e a cabecinha deles é a gente e não eles. E que o tempo lá de fora é mais importante do que o emocional e fisiológico da criança (tempo de dentro).

Então se o indivíduo têm componentes próprios e variáveis o desfralde deve ser intuitivo. A criança é quem deve intuir e decidir qual é o momento certo do desfralde. E o nosso papel é apenas ler esses sinais.

Escuto muitas mães relatarem sobre os desafios do desfralde, os escapes diários e as inúmeras frustações. Ouço a mensagem nossos filhos: mãe, aquilo é natural deve ser tranquilo.

Ouço também alguns médicos dizendo: a prisão de ventre e outros fatores de disfunções podem ser ocasionados pelo desfralde antecipado.

Por isso, decidi fazer diferente por aqui e fugir dessa maratona pelo troféu do desfralde.

E o meu testemunho é para incentivar as mães a não buscarem o caminho do sofrimento.

Repito: aquilo que é natural deve ser tranquilo.

O verbo da paz no desfralde é na terceira pessoa: ele se desfraldou e não: eu o desfraldei.

Meu filho se desfraldou bem depois do recomendado pela Madame Sociedade, e continua usando fralda para dormir, pois as águas noturnas me dão esse sinal de como anda o tempo de dentro.

Posso contar com detalhes depois, mas talvez não valha à pena me ouvir: a resposta para todas as suas perguntas está nele, no seu filho. E posso garantir: é tranquilo.


 



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