22 de agosto de 2019

Culinária

IBÉRICO

Arroz à Cervantes

Da Galiza vem este prato que o leitor vê na foto desta página; ele homenageia o autor de Dom Quixote de La Mancha, primeiro anti-herói

Culinária 27/07/2019 - Repórter: Sônia Machiavelli
Foto de: Dirceu Garcia/Comércio da Franca
Da Galiza vem este prato que o leitor vê na foto desta página; ele homenageia o autor de Dom Quixote de La Mancha, primeiro anti-herói da literatura universal no qual se concentram não só virtudes, mas também defeitos humanos
Galo que não canta, tem algo na garganta.”
Ditado popular em língua espanhola
 
 
porção: 4
dificuldade: fácil
preço: econômico
 
Ingredientes
 
 2 cebolas grandes
 4 dentes de alho
 6 colheres (sopa) de azeite
 2 xícara (chá) de arroz
 5 xícaras (chá) de água fervente
 1 colher (sobremesa) de açafrão 
 1 colher (café) de pimenta vermelha em pó
 150 gramas de ervilhas congeladas
 1 pimentão amarelo  médio
 150 gramas de linguiça 
 Sal a gosto 
 
 
A gastronomia espanhola, das mais ricas do mundo, é apreciada por muitos brasileiros que adoram recriar seus pratos, de número espantoso. O grande diferencial é a diversidade de alimentos e combinações. Cada lugar daquele país possui um cardápio específico, lembrando um pouco o que acontece no Brasil. No litoral, a mesa é uma; no interior, outra.
A Espanha é o segundo maior país consumidor de frutos do mar, muito presente na culinária da região costeira. O gosto pelas carnes vermelhas e presuntos estende-se por todo o interior. Azeite de oliva e alho, um pãozinho para acompanhar, muita salada no verão são encontrados em toda parte. A paella, dos mais típicos pratos valencianos, tornou-se grande referência e é replicada mundo afora. Era originalmente feita por trabalhadores do campo que misturavam vários ingredientes ao arroz que levavam de casa e comiam diretamente na panela. O gaspacho, típica sopa fria de toda a Andaluzia, tendo como base tomate, pepino e pimentão, é servida há pelo menos quatro séculos no verão. O pistou é um mix de legumes refogados, como tomate, abobrinha, pimentões vermelho e amarelo, acompanhados de um ovo frito em cima. Os pratos com polvo nasceram na Galiza, onde as mulheres ensinam que este fruto do mar deve ser sovado para suavizar os nervos, depois submerso em água fervente por três vezes, no chamado “susto”, e preparado em panela de cobre para conservar a pele.
 
Da Galiza vem também o arroz que o leitor vê na foto desta página. Ele homenageia Cervantes, o autor de Dom Quixote de la Mancha, primeiro anti-herói da literatura universal onde se concentram não só virtudes, também defeitos humanos. Por isso dele se diz que espelha o homem moderno, consciente de sua liberdade e dignidade. A história narra as loucas aventuras de um senhor rural de Castilla La Mancha. Ele acredita ser um cavaleiro andante da Idade Média em busca de sua dama Dulcineia. Na sua trajetória maluca faz-se acompanhar de seu escudeiro, Sancho Pança, do cavalo Rocinante e do jumento Ruço.
 
A vida de Miguel de Cervantes foi tão ou mais aventureira que a de sua criatura. Na juventude, fugiu do país após uma condenação à revelia. Anos depois, participou de uma batalha naval na qual perdeu o movimento de uma das mãos. Capturado por piratas, ficou cinco anos no cativeiro em Argel. E depois disso tudo, ainda foi preso em Madri pela falência de um banco onde havia depositado impostos que recolhera. Como escritor, penou um bocado. Enfrentou enorme dificuldade para editar a primeira parte de Dom Quixote. Quando o conseguiu, foi rechaçado por um importante crítico de sua época, que considerou o livro “uma bobagem” e seu autor, “péssimo escritor”. Mas os leitores, que são os que, afinal, imortalizam obra e autor, aplaudiram o romance de 200 personagens, 160 peças musicais e 150 citações a produtos e pratos espanhóis.
 
Essa ênfase na comida deveu-se ao fato de que na Espanha do “Século de Ouro”, à exceção da aristocracia e dos religiosos, a maioria da população comia pouco e mal, muitos viviam de sobras dos conventos e da caridade. O mesmo acontecia com fidalgos pobres, como Dom Quixote, que tinham uma dieta minguada, caracterizada pelo odor do alho e da cebola crus, do azeite, dos embutidos, dos pimentões assados e das batatas, naturalmente, ingrediente que já habitava a cozinha espanhola, a primeira a receber os produtos do Novo Mundo, levados pelos descobridores até a Península Ibérica.
 
O “Arroz à Cervantes” tem intensa cor amarela, resultado do uso do açafrão (ou da cúrcuma), tão caro aos cozinheiros espanhóis. É prato bom para ser servido como único, ou acompanhado apenas por uma salada de alface e tomates. Descasque as cebolas e corte-as em plumas. Descasque os dentes de alho e pique-os fininho. Numa panela grande e baixa, refogue em azeite cebola e alho, sem deixar que fritem. Ao fim de cinco minutos, adicione o arroz. Aumente o fogo e mexa bem até os grãos ficarem de cor marfim. Junte o açafrão (ou a cúrcuma) e a pimenta vermelha. Agregue a linguiça aferventada e cortada em rodelas. Mexa e junte o pimentão e as ervilhas. Cubra com a água fervente. Deixe cozinhar lentamente, ou seja, com a panela sobre chama baixa, por vinte minutos ou até a completa evaporação da água. Se ainda houver um pouco de líquido no final do cozimento, basta aumentar o fogo e deixar que evapore. Mas cuidado para não queimar o fundo da panela.
 
PASSO A PASSO
 
1 - Refogue no azeite as cebolas e os dentes de alho picados
 
2 - Junte o arroz e mexa bem até os grãos ficarem de cor marfim
 
3 - Acrescente as rodelas de linguiça previamente aferventada
 
4 - Agregue as ervilhas, o pimentão e cubra com água (dois dedos acima dos grãos)
 
5 - Verifique o cozimento; e se ainda houver líquido, baixe a chama e aguarde até secar
 


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