20 de agosto de 2019

Opinião

As retaliações do presidente

O diretor do INPE e integrantes da Comissão da Verdade deixaram seus cargos; uma evidência da índole hostil do presidente da República.

Opinião 03/08/2019 -

O diretor do INPE e integrantes da Comissão da Verdade deixaram seus cargos; uma evidência da índole hostil do presidente da República.

Jair Bolsonaro, eleito ano passado com um número invejável de votos, não entendeu até agora que deveria governar para todo o País. O ódio engendrado na sua campanha, que conseguiu opor brasileiros de forma até então desconhecida, parece não haver cessado com sua ida para o Palácio do Planalto. Em lugar de apaziguar os ânimos e buscar o consenso, o que seria papel de estadista, Jair Bolsonaro não se comporta como o líder de uma nação, mas apenas dos que o elegeram e a quem respalda com falas que traduzem espírito belicoso e índole hostil. Quem não comunga com seus pontos de vista é atacado e defenestrado.

Nesta sexta-feira, o diretor do INPE, depois de criticado por duas semanas, foi exonerado de suas funções: contra ele a espuma da raiva cresceu tão logo foram trazidos a público dados que revelam que as áreas desmatadas da Amazônia estão 40% mais amplas em relação ao ano passado . Ressalte-se que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é um órgão científico; os números que apresenta não são ilações e sim realidades captadas por satélites.

No dia anterior, tinham sido afastados, por decreto publicado no Diário Oficial, quatro integrantes da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, alvo da ojeriza de Bolsonaro. Ele se irritou com a divulgação de documentos que desmentiram sua fala recente, segundo a qual o pai do atual presidente da OAB, Felipe Santos Cruz, teria morrido em 1974, assassinado por seus companheiros da AP (Ação Popular, grupo de esquerda). Na verdade, Fernando Santos Cruz morreu “em 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado Brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”. O texto aspeado faz parte do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade.

Este é mais um capítulo na história que começou quando Bolsonaro soube que a OAB se negava a quebrar o sigilo telefônico do advogado que defendeu o autor da facada contra sua pessoa, então candidata à presidência. Acontece que, esse sigilo é norma há muito instituída. Exaltado, o presidente destinou um comentário desairoso à OAB e derramou seu fel sobre Santos Cruz, com alusões maldosas a seu pai. Em decorrência, Santos Cruz e mais onze ex-presidentes da OAB bateram à porta no Supremo, requerendo providências. Podem vir surpresas por aí. Cedendo à raiva e governando com rancor, Bolsonaro faz da retaliação uma arma perigosa. E gasta de forma ruim sua energia, que deveria ser dirigida para pensar soluções que pelo menos amainassem os graves problemas do país, como o número de desempregados.

 

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