20 de agosto de 2019

Opinião

Contra feminicído, educação

Não bastam leis para reverter o avanço do feminicídio; é necessário repensar a educação das crianças

Opinião 09/08/2019 -

É inquietante e assustador que, mesmo diante de leis mais rígidas, o número de assassinatos de mulheres venha crescendo e, só no primeiro trimestre ano, aumentado 76 % no nosso Estado. A comparação se faz com números do ano passado. De acordo com levantamento, em 2018, no mesmo período, foram mortas 21 mulheres. De janeiro a março deste 2019, foram 37. Oito em cada dez casos ocorreram dentro de casa e 26 dos 37 casos tinham autoria conhecida. Os motivos mais comuns alegados pelos assassinos apontam para o inconformismo e a raiva deflagrados pela separação. De fato, as notícias incomodam a uma parcela expressiva da população porque tocam numa ferida da nossa cultura que apenas as leis não conseguem sanar. É um problema que tem lastro na nossa cultura. No tempo da colonização, mulheres brancas eram mantidas na Casa Grande e vedadas à maioria dos olhares masculinos. A submissão à figura do pai e dos irmãos fez dela um ser que não deveria expressar suas vontades, já que dela cuidariam os homens da família e, depois, o homem que lhe destinavam como marido.

Os costumes mudaram paulatinamente. Muito devagar evoluímos- vieram as escolas onde as meninas puderam ser alfabetizadas; depois os cursos onde se preparavam para serem professoras; veio em 1932 o direito ao voto; depois abriram-se oportunidades de entrada em cursos mais técnicos, como o de enfermagem. Etc. Mas foram tão fortes o peso e o ranço de séculos de dominação masculina, que ainda hoje, com todos os avanços em várias frentes, temos um número ínfimo de representantes femininas no Legislativo, no Executivo e no Judiciário. Número que se torna ainda mais expressivo da desigualdade quando sabemos que o Brasil tem uma população composta por mais mulheres que homens.

Torna-se muito necessário reverter essa situação. E isso só vai acontecer quando os meninos começarem a ser educados numa cultura de respeito às meninas, de reconhecimento à igualdade dos gêneros no que tange às potencialidades para enfrentar a vida lado a lado, sem hierarquias presumidas a priori e que reservam aos homens um lugar superior. Quanto às meninas, também devem ser educadas de forma a se valorizarem mais, acreditarem em suas potencialidades, desenvolverem uma autoestima consistente e deixarem as “princesas” apenas para os contos de fada.

Essa educação não seria provida apenas pela família, cuja influência é forte mas não decisiva; mas também pelo Estado, nas suas orientações que precisam avançar com os currículos e sobretudo com uma visão mais evoluída do que significa ser homem e ser mulher na sociedade do século XXI. Não se trata, é obvio, de vestir rosa ou azul.

Num trabalho conjunto é possível evoluir nessa questão que mostra sua face mais perversa na informação da diretora do Forum Brasileiro de Segurança Pública, segundo a qual, “apenas 10% das mulheres vítimas de agressão procuram uma delegacia para registrar queixa”. E das que registram, em média 30% optam por retirá-la, algumas horas depois.

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