15 de dezembro de 2019

Nossas Letras

Curupiras

Ainda indignada com o destino que parece estar sendo traçado para o inestimável patrimônio da humanidade que é a floresta amazônica

Nossas Letras 10/08/2019 - Repórter: Sônia Machiavelli
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Ainda indignada com o destino que parece estar sendo traçado para o inestimável patrimônio da humanidade que é a floresta amazônica, eu me refugio em leituras de Milton Hatoum, Mário de Andrade e Padre Anchieta.

Com Hatoum mergulho no mundo verde que a sanha pecuniária não consegue conceber pelo viés da complexidade e importância vital para o planeta. Volto à tona louvando aquele universo resgatado pela arte; no caso, a escrita densa e compacta do escritor manauense que nos presenteia com retratos de uma Amazônia que não é a turística e sim espaço para dramas humanos.

Com Mário de Andrade olho outra vez Macunaíma, filho do medo e da noite, negro índio a tomar banho de mandioca brava numa tribo amazônica para virar europeu. Adulto, ele se apaixona por Ci , que morre e lhe deixa um amuleto- o muiraquitã roubado por um tal Venceslau Pietro Pietra, também conhecido como o gigante Piaimã, comedor de gente. Essa rapsódia estranha que nos fala da formação de nossa nacionalidade nunca perde a atualidade. Agora mais que nunca precisa ser revisitada, pois há muitas coisas surreais acontecendo em nosso país.

Com Anchieta, o olhar recua até 1560 e encontra num trecho de carta o comentário sobre os curupiras, que do Maranhão para baixo se chamavam caiaporas. Esses seres estranhos, que compunham uma teia de lendas ricas de significados que hoje diríamos ecológicos, atacavam todos os que entravam na floresta com intuito de destruição- fosse da flora, fosse da fauna. Àquela altura, a ambição do colonizador já sinalizava o que estava por vir.

Hatoum nos revela uma Manaus misteriosa, só perfeitamente interpretada pelos que nela nascem e crescem e morrem. Mário de Andrade alerta para os piaimãs que assumem formas diversas e podem estar ávidos por um pulmão. Anchieta traduz preocupação implícita com os que vivendo de forma primitiva junto à natureza, não admitem sua degradação. São três vozes a iluminar a floresta que neste século se tornou mais do que nunca alvo da cobiça de uns e de outros.

Queria uma lupa mágica para levar a todos os brasileiros a escrita sensual de Hatoum que traduz com beleza literária insuperável aspectos de uma região onde águas e árvores e seres criam um clima luxuriante onde as paixões irrompem como um sonho- às vezes; ou um pesadelo- outras.

Queria uma tela mágica para exibir de forma permanente a cara de Grande Otelo na pele de Macunaíma em todas as praças públicas desse nosso país que de plural se tornou polarizado. Quem sabe vislumbrássemos na obra modernista detalhes que desvelariam nossa gênese para que entendêssemos esse momento de antagonismos na vida nacional que anda comportando outros heróis debochados e sem nenhum caráter.

Queria principalmente uma varinha mágica, para inundar a floresta de curupiras, esses benfazejos defensores da natureza. Com suas cabeleiras ruivas, dentes verdes, assovios ensurdecedores, velocidade assombrosa e calcanhares virados à frente para disfarçar a direção de seus passos, os curupiras fariam os invasores perderem-se na selva. De tal forma que nem os potentes satélites do INPE os encontrariam mais.
 



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