15 de dezembro de 2019

Nossas Letras

Destino

Avistei meu ônibus chegando ao mesmo tempo que eu ao ponto e corri, na vã tentativa de alcançá-lo.

Nossas Letras 10/08/2019 - Repórter: Fernanda Meister
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Avistei meu ônibus chegando ao mesmo tempo que eu ao ponto e corri, na vã tentativa de alcançá-lo. Alguém no ponto gritou, acenando ao motorista para que me aguardasse, mas ele acelerou impiedosamente. Esbaforida e conformada de que chegaria atrasada ao meu compromisso, sentei-me para aguardar a próxima condução.

Com a visão voltada para a rota do transporte público, vi surgir no horizonte uma senhora que caminhava em câmera lenta. Chegou ao ponto de ônibus, analisou a limpeza do banco, deu três tapinhas para afastar a poeira invisível e sentou-se ao meu lado. Sorri para ela, que, arreganhando um sorriso desdentado, disparou a falar:

-Moça, eu estou esperando o Terminal Cotia. Você viu se já passou?

-Eu também acabei de chegar, mas não vi passar, não.

-O Terminal Cotia demora demais para passar. Eu vejo todo tipo de destino passar, mas o Terminal Cotia demora uma vida.

Após um brevíssimo silêncio, retomou o assunto:

-Moça, você não conhece ninguém que precise de cuidadora, não? Eu tenho boas referências, pode perguntar. Neste prédio, naquele outro ali, ó. Sabe, hoje é meu último dia no trabalho. A minha patroa, tadinha, adorava viver sozinha, toda independente, amava sua liberdade, vivia sem atrapalhar os outros. Eu só fazia ser companhia mesmo. Precisar, ela não precisava não. Mas agora que ela caiu, a família me dispensou. Noventa e cinco anos. Me cortou o coração ver as coisinhas dela todas ajeitadas em dois caixotes e uma mala. Ela vai se mudar para viver com uma filha lá no interior... Moça, presta atenção. Esse ônibus é o Terminal Cotia?

-Não, é o Osasco.

-Desculpa te pedir isto, moça, mas é que eu não sei ler direito. Presta atenção pra mim, por favor. A gente fica aqui papeando, se distrai e, quando vê, perdeu o destino.

-Tudo bem, estou prestando atenção, a senhora pode ficar tranquila.

-Então, moça, eu quase chorei. Agora estou pensando se dá pra ir na Caixa, se tenho direito ao seguro desemprego. Mas, sabe... Seguro desemprego não sei se dá, não... Não deu um ano de registro. Precisa de um ano. A Odete, minha vizinha, que me falou. Vou lá na Caixa conferir meus direitos. Moça, você não conhece ninguém que tá precisando de cuidadora, não?

-Não, não conheço. Sinto muito!, disse-lhe, com pesar em não poder ajudá-la.

-Tudo bem, eu vou lá na Caixa. A minha patroa disse que tem um tal de getessi que eu posso retirar, que ela pagou tudo direitinho.

-Ah, o FGTS?

-Isso, moça! Moça, vê se um desses três é o Terminal Cotia, por favor?

-Sim, é o segundo.

-Ah, o meu destino! Muito obrigada!, despediu-se, acenando para o motorista e suspirando de alegria com seu sorriso vazio.

E, retomando seu passo lento e pesado, foi encontrar o seu destino no Terminal Cotia.

 



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