24 de fevereiro de 2020

Opinião

Crivella e o gibi

Na última semana, uma cena inédita marcou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Fiscais da prefeitura municipal daquela cidade foram até o ev

Opinião 08/09/2019 -
Na última semana, uma cena inédita marcou a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Fiscais da prefeitura municipal daquela cidade foram até o evento, que acontece há 38 anos, na tentativa de apreender a história em quadrinhos Vingadores - A histórida das crianças, depois de o prefeito Marcelo Crivella ter dito que o gibi continha “conteúdo impróprio para menores”. Saíram do evento sem nada nas mãos, inclusive porque a ação do prefeito provocou uma corrida pela história, que foi toda vendida rapidamente. Os fiscais não encontraram nenhuma obra que fosse contrária a legislação na Bienal, mas um amplo debate sobre a censura e a homofobia tomou conta do país.

O assunto foi parar no Judiciário. Primeiro o Tribunal de Justiça do Rio concedeu uma liminar que impedia a prefeitura de apreender livros na Bienal, poucas horas depois a liminar foi derrubada pelo menos órgão. No entanto a atitude de Crivella foi muito criticada pela relatoria especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, por editores, autores, pela OAB, e por grande parte da população, que considerou censura. Em um comunicado, o órgão ligado à OEA (Organização dos Estados Americanos) indicou que a “proteção das crianças não pode ser utilizada como pretexto para impedir que crianças e adolescentes tenham acesso a obras em qualquer formato que representam a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero que faz parte das pessoas”.

Ainda no sábado, o youtuber Felipe Neto levou uma multidão à mesma Bienal ao anunciar que distribuiria 14 mil obras com personagens LGBT, numa tentativa de confrontar a decisão do prefeito carioca. Longas filas se formaram em frente ao evento, que registrou recorde de público. Felipe Neto disse que “a partir do momento em que a gente abrir concessão para aceitar que o prefeito Crivella faça isso na Bienal do Livro da cidade do Rio de Janeiro, nós simplesmente abrimos uma porta para a repressão”.

A aceitação a relacionamentos homoafetivos ainda possui um longo caminho no Brasil. É importante considerar que a homofobia é crime equiparado ao racismo no país e a Constituição Federal garante a liberdade de expressão e pensamento. E, além do mais, quem não quiser ter acesso a qualquer tipo de livro, é só não comprar, não ler e escolher títulos que agradem mais. Proibir a comercialização, apreender, tirar de circulação qualquer obra por discordar com seu conteúdo é uma proximidade realmente perigosa com a censura.

No entanto, cada vez mais os jovens, como o youtuber Felipe Neto e seus seguidores, ensinam os mais velhos sobre respeito e aceitação à diversidade, reprimir a liberdade é um “tiro no pé”. Afinal, imaginar que um simples beijo entre dois personagens do mesmo sexo é pornografia transcende o bom senso. Antes de mandar apreender gibis, os políticos conservadores deveriam antes se dedicar a ler mais, a refletir sobre a complexidade da vida humana e sobre como a repressão normalmente, na história da humanidade, gera uma reação contrária, em defesa pela liberdade ainda maior. Liberdade, inclusive para quem não quiser ter acesso a qualquer tipo de obra, de não ser obrigado a ler suas páginas - nem de ver seus desenhos.


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