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Há anos, em frente à minha casa havia imenso terreno vazio cheio de mato, urtigas, bichos rastejantes, mosquitos e sacos de lixo cheios de m

Opinião 14/09/2019 -
Há anos, em frente à minha casa havia imenso terreno vazio cheio de mato, urtigas, bichos rastejantes, mosquitos e sacos de lixo cheios de material orgânico. Também, sofás em pandareco, restos de construção, pias e vasos quebrados, canos, areia, sacos de cimento, telhas em pedaços. Abríamos a porta de casa e, atravessando a rua, logo ali à frente, esse cenário desolador. A iniciativa partiu do meu marido. Ele conhecia o proprietário do terreno, pediu licença, mandou limpar a área, plantou grama, algumas árvores. Ficou decente, limpo, até bonito. Com o tempo acabamos por sermos proprietários do terreno e aí aumentamos a flora. Plantamos mais árvores, todo o excesso verde que saía do nosso jardim de casa, se transformava em canteiros coloridos no “terreno”, como chamávamos aquele pedaço de terra do outro lado da rua de casa.

Como a cidade e cidadãos não tinham convivência com propriedades abertas aos olhos, embora com devidos e legalizados proprietários, volta e meia apareciam pessoas que – literalmente – arrancavam as plantas e as levavam embora. Resolvemos isolar o terreno. Não quisemos cerca alta, inventei uma com postes de cimento baixinhos, e por cima, estendi corrente grossa de ferro. Plantei amor-agarradinho sobre ela, para completar. Não demorou, começamos a chamar a pracinha que se formou pelo nome de meu marido... Demorou menos ainda, as pessoas começaram a entrar por ela, sem convite ou licença, fosse para tirar fotografias, levar o cachorro para se esvaziar na casa alheia. E continuavam a levar minhas plantas.

Melhorou pouquinho, quando construímos, no extremo limite do nosso terreno, meu escritório para onde ia escrever, bordar, pensar na vida, cuidar das minhas plantas e até pajear netas. Encontrava e encontro ainda, amiúde, na área verde que fica à frente da construção, visitantes que entram, percebem mas ignoram as demarcações de privacidade. Não se importam com a equipe trabalhando no escritório. Entram sem pedir licença, ou avisar. Ficam horas e esparramam lixo: papéis de bala, cascas de sorvete, vasilhames de refrigerante ou água. Piquenique no jardim da rainha... Dias desses levei saquinho plástico e pedi à mocinha que levara seu cachorro para se aliviar no meu jardim, que catasse os dejetos e os levasse de lembrança, para sua casa. Ficou fula. Perguntei ao fotógrafo quem o autorizou a cruzar a demarcação, esmagar minhas plantas com os pés da equipe inteira na busca de melhores ângulos para suas fotos. Me olhou atravessado. Tinha intenção de dar exemplo de “delicadeza urbana”, que desapareceu quando me senti abusada.

Ouvi agorinha que doravante, se eu morasse na Itália, poderia atirar nos invasores e alegar legítima defesa, quando avançassem meu espaço, sem pedir licença ou autorização. Cachorros não seriam convidados, mas fotógrafos e transeuntes que se mostrassem delicados, civilizados, gentis e educados e me pedissem permissão, entrariam e ainda levariam na lembrança outros cenários igualmente ricos e saborosos.

 

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora
luciahelena@comerciodafranca.com.br


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