19 de janeiro de 2020

Nossas Letras

Medo

Sofremos implacável bombardeio de informações ditas científicas: qualquer pinta na pele é provável sinal de câncer.

Nossas Letras 07/12/2019 - Repórter: Lúcia Helena Maniglia Brigagão
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Delicada e sutilmente, sentimento de grande inquietação ante a ideia de perigo real ou imaginário vai-se instalando dentro de nós, por várias razões. Por influência da educação; como resultado direto de informações oficiais; ou mesmo através da elaboração de simples relatos do cotidiano. Num repente, somos prisioneiros do medo. O processo começa na infância: o bicho-papão come quem? Crianças que se recusam a comer, que são mal criadas, respondonas ou não querem dormir na hora determinada. A ameaça do guarda “que virá te prender” é carta salvadora tirada da manga da maioria dos pais na hora da desobediência infantil. As residências modernas mantêm-se permanentemente isoladas e protegidas. Os carros têm alarmes, vidros escurecidos, camada extra de material anti um monte de coisa. Há quem carregue consigo uma quantia de dinheiro à mão para ser dada em caso de assalto. Carteiras e cartões de crédito são guardados em compartimentos especiais. Quando se viaja, dinheiro, passaporte ficam dentro de bolsinhas grudadas no corpo. Chegar em casa fora de hora, exige esforço extra para olhar para cima, para baixo, dos lados. Qualquer desconhecido torna-se potencial adversário. Inimigo.

Sofremos implacável bombardeio de informações ditas científicas: qualquer pinta na pele é provável sinal de câncer. Tontura é manifestação de tumor cerebral. Faça check-up periodicamente. Evite sal, gordura, condimentos na alimentação. Não converse com desconhecidos. Não fale de sua vida pessoal. Evite usar joias ou qualquer material que pareça ser valioso. Nunca tome Sol depois das onze horas sem protetor solar. Use camisinha. Planeje seu ano, cuide da agenda, não falte a compromissos. Pense duas vezes antes de agir. Não se apaixone demais. Não ame gente diferente de você. Enquanto a única certeza da vida é a morte. Precaução e água benta não fazem mal a ninguém, garantem tranquilidade e certa qualidade de vida. Perigos externos - reais ou imaginários - viraram paranoia e encobrem medos internos dos quais somos vítimas e que, eles sim, acabam conosco. Prejudicial e mortífero, aquilo que dá fim à qualidade de vida da gente é o envenenamento lento pelo absurdo exagero: o medo do medo.

Viver supõe correr alguns riscos, temer alguns perigos. Atenção, porém, para o sofrimento lento que nos faz morrer internamente todos os dias um pouquinho, quando não nos arriscamos nas coisas mais simples. Morre aos poucos aquele que não se expõe e não sai dos seus limites domésticos, urbanos, sabidos de cor para pegar estradas, desvio ou caminho desconhecidos por força da rotina, submetendo-se ao medo do medo de mudar.

Vai definhando internamente quem se coloca sob capa de proteção para evitar aproximações de estranhos. Com medo do medo de se ferir. Destrói seu paladar quem não usa pimenta malagueta, pelo menos uma vez na vida, para experimentar uma nova sensação. Talvez pelo medo do medo de gostar. Faz minguar as sensações do seu corpo quem não se expõe à quentura do Sol ou ao frio da água corrente para aprender na prática as diferenças entre extremos e voluntariamente decidir sobre suas reais preferências. Medo do medo de assumir, possivelmente. Implode sua emoção e criatividade quem não ousa atitude, cor, paixão; quem jamais atende ou faz pedido de perdão, repetindo incessantemente palavras e posturas alheias. Medo do medo de errar e parecer ridículo? Morre sem perceber, quem todo dia se levanta, escova os dentes, toma café, não olha o horizonte, se dispõe a ouvir más notícias, deixa-se aborrecer, detesta seu trabalho, acredita que não tem motivos para sorrir. Medo do medo de virar a mesa? Medo do medo de mudar e deixar de parecer autômato? Ou, quem sabe, vir alguém e acabar com a chatice de sua vida.



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