17 de janeiro de 2020

Nossas Letras

Messiah

Havia começado a assistir Messiah, no Netflix, quando fui informada sobre o ataque iraniano à embaixada dos EUA no Iraque

Nossas Letras 11/01/2020 - Repórter: Sônia Machiavelli
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Havia começado a assistir "Messiah”, no Netflix, quando fui informada sobre o ataque iraniano à embaixada dos EUA no Iraque, com saldo de duas mortes. E tinha terminado o último dos oito episódios quando drones norte-americanos despejaram bombas sobre o carro onde se encontrava o número dois do Irã, matando-o e a outro nome top na vida político-religiosa do país que um dia se chamou Pérsia e esteve por breve tempo sob domínio de Alexandre, o Grande.

Por que associei a ficção que então me entretinha à realidade que passou a me preocupar? À parte a coincidência entre o início e o fim da série e os dois acontecimentos violentos, há a razão evidente de que ambos, noticiário e ficção, tratavam da complicada relação entre Ocidente e Oriente Médio. Em tempos em que se fala de novo em guerra, a pertinência do tema cresce a olhos vistos. E, sim, o protagonista, sugerido como Jesus Cristo de volta à Terra, tem nacionalidade iraniana, chama-se Payan Golshiri, e foi criado por um tio que fez fama como mágico.

O enredo começa após uma tempestade de areia impedir um iminente ataque do Estado Islâmico à capital da Síria. O fenômeno da natureza é atribuído ao homem que, pelas ruas da cidade, vai protagonizando “milagres” que levam o povo a chamá-lo “Al Masih”, o Messias. Pela condição de empatia e capacidade mobilizadora, atrai a atenção de autoridades palestinas, judaicas, cristãs. E dos EUA, aliados sempiternos de Israel.

Hostilizado pelos muçulmanos, para quem é o anticristo; caçado pelos agentes da CIA, que nele veem um terrorista; visto como o salvador que retorna à Terra pelos pobres e oprimidos, segue impávido por países do Oriente. Depois de levar uma multidão à fronteira israelense, desaparece da prisão de segurança máxima. Reaparece numa cidadezinha do Texas, no momento em que é atingida por um tornado. O fato de só permanecer de pé uma igreja evangélica é entendido pelos sobreviventes como outro “milagre”. Al Masih se torna mais conhecido e leva então um grande número de pessoas à capital do país, onde caminha sobre as águas do lago fronteiriço ao Monumento a Washington. A lembrança de Jesus e a metáfora politica que incorpora fazem a imagem postada correr o mundo. Tem muito mais, mas chega de spoiler.

Criada com a óbvia intenção de mostrar a relação entre fé, política e mídia, Messiah faz muitas perguntas e não fornece respostas. O homem é mesmo quem diz ou uma fraude bem orquestrada? Seu discurso de filho de Deus, que deve convencer pela palavra, é de sua autoria ou é um plágio? A mídia busca informação a todo custo ou alimenta fatos que rendam audiência para o noticiário? O presidente americano se preocupa de verdade com a segurança de seu povo ou coloca em primeiro plano o poder que detém à frente de uma potência nuclear?

É a dúvida que sustenta a história e espelha nossa perplexidade diante de um mundo onde as certezas são bem poucas. Tudo o que vemos é mesmo real?
 



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