04 de abril de 2020

Artes

INDICAÇÃO

Brasil no Oscar

O documentário brasileiro Democracia em Vertígem, de Petra Costa, foi indicado para concorrer à cobiçada estatueta de ouro

Artes 17/01/2020 - Repórter: Agência Estado
Foto de: Divulgação
Tem Brasil no Oscar. Petra Costa foi indicada para concorrer ao prêmio de melhor documentário no anúncio feito pela Academia, nesta semana, em Los Angeles. O país não tinha um representante entre os finalistas da categoria desde 2010, quando concorreu com Lixo Extraordinário, produção anglo-brasileira, dirigida pela cineasta britânica Lucy Walker e que mostrava o trabalho do artista brasileiro Vik Muniz com catadores de material reciclável num aterro em Duque de Caixas, no Rio.

Petra estava em Belo Horizonte e comemorou com a família. Contou que Democracia em Vertigem foi o segundo documentário mais visto na plataforma de streaming da Netflix em 2019. Não possui dados sobre a exibição planetária do filme, mas afirma que, de toda parte, “da Índia ao Uruguai”, colheu repercussões muito positivas. Falando na primeira pessoa, no filme, ela analisa numa perspectiva de classe, de dentro - como integrante de uma família de grandes empreiteiros -, tudo o que ocorreu no Brasil dos últimos anos. O processo de impeachment, a Lava Jato. “Essa história brasileira ganhou ressonância universal. A democracia está em vertigem em todo o mundo”.

Ela ainda não sabe que estratégias a Netflix pretende estabelecer nessa nova etapa da corrida para o Oscar. Só sabe que terá trabalho pela frente.

A indicação chegou a ser ironizada por Roberto Alvim, o secretário Especial de Cultura demitido pelo presidente Bolsonaro nesta sexta-feira por ter feito um discurso de forte inspiração nazista. Na ocasião da indicação do documentário brasileiro, Alvim havia dito que a escolha da Academia estaria correta se a produção disputasse a estatueta na categoria “ficção”.

Para comemorar

A Netflix tem motivos de sobra para comemorar. Embora Coringa, de Todd Phillips, tenha liderado as indicações para o prêmio da Academia - com 11 -, três filmes obtiveram dez indicações cada um, entre eles O Irlandês, de Martin Scorsese, produzido e distribuído pela Netflix. Os outros dois foram Era Uma Vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino, e 1917, de Sam Mendes. No total, a Netflix cravou 24 indicações. Entre elas, por O Irlandês (dez), História de Um Casamento, de Noah Baumbach (seis) e Dois Papas, de Fernando Meirelles (três).

Surpreendentemente, o sul-coreano Bong Joon-ho recebeu seis indicações por Parasita, sendo as mais importantes para melhor diretor e filme e melhor filme internacional. Com exceção de Awkwafina, melhor atriz de comédia ou musical, por The Farewell, todos os vencedores dos Globo de Ouro de atuação estão na disputa.

Renée Zellweger concorre a melhor atriz por Judy, Brad Pitt será o mais que provável melhor ator coadjuvante pelo Tarantino - Era Uma Vez em...Hollywood - e Joaquin Phoenix o melhor ator por Coringa. Pitt e Phoenix são as vitórias anunciadas deste ano, mas atenção. Como o Oscar tem a fama de ser uma caixinha de surpresas, não se deve subestimar o fato de Glenn Close, no ano passado a mais segura das apostas, ter perdido o Oscar de melhor atriz por A Esposa - venceu a Olivia Colman de A Favorita. Nas próximas semanas, as premiações das guilds - os sindicatos - poderão iluminar um pouco mais o caminho.

A grande indústria tem todo motivo para também comemorar o recorde de Coringa, mesmo que o longa de Todd Phillips não venha a colher muitas vitórias.

É o filme baseado em quadrinhos com o maior número de indicações da história, e isso ocorre ainda sob o impacto de uma polêmica afirmação de Martin Scorsese, no ano passado.

Segundo ele, o que a Marvel faz não é cinema. Produzido pela DC, sob a bandeira da Warner, Coringa coloca o arqui-inimigo de Batman no centro de uma sombria história sobre a decadência da civilização. Na versão de Phillips - que toma elementos emprestados de Scorsese no personagem do apresentador de TV interpretado por De Niro, e que parece saído de O Rei da Comédia, de 1983 -, o Coringa vira expressão do inconsciente coletivo num mundo dilacerado por desigualdades sociais e pela revolta dos excluídos.

Talvez seja radical demais para a Academia, que sempre poderá premiar a ousadia técnica - o plano-sequência de mais de duas horas - e a pauta humanista de 1917, num momento em que o presidente Donald Trump parece estar arrastando o mundo a um novo confronto, no Oriente Médio.



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