18 de fevereiro de 2020

Nossas Letras

'Hasta luego', Lupe

Nos despedimos com um abraço fraterno; e ela me falou: - Bueno, nos vemos. Compartilhando sua fé em outra vida, digo-lhe agora que ela...

Nossas Letras 08/02/2020 - Repórter: Sônia Machiavelli
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Certos dias chuvosos não me fazem bem ao espírito. O cinza das nuvens, a diminuição da luz, a cor do pesar me deprimem. Foi assim na quarta-feira, quando a manhã pluvial me mostrou pela janela um recorte triste de paisagem. Intuía algo de nefasto, e antes que tomasse o primeiro café, o telefone soou. Do outro lado, a voz de meu filho me confirmou o pressentimento. Nossa amiga Guadalupe Espiñeira havia morrido na UTI da Unimed. Deixava órfã Aniette Renon, endocrinologista de renome e membro da Hemodiálise da Santa Casa, e as netas Lorena e Amanda, estudantes do ensino fundamental II. Deixava também em luto parentes que não moram no Brasil e todos os amigos que conquistou em Franca com seu coração amoroso, incomum vivacidade no relato de fatos e capacidade muito grande de estabelecer vínculos com os seres humanos.

Sem dominar por completo o português, Lupe expressava-se com olhar rutilante e gestos tão precisos que todos a entendiam, especialmente quando falava da família que deixara em Cuba há mais de uma década, das sobrinhas que migraram para outros países da América, de seu amor à cultura e ao povo cubano, da precária economia da ilha, da gratidão aos francanos que a tinham acolhido, e à suas queridas, com muito afeto. De linguagem peculiar, essa médica que renunciou à carreira para acompanhar a filha ao Brasil e auxiliar no cuidado às netas gêmeas, costumava oferecer ao seu interlocutor aulas de anatomia e humanidade. Era uma mãe devotada e avó apaixonada. Para escrever sobre a intensidade do seu amor e zelo às niñas, todas as páginas deste Comércio seriam poucas.

Quero manter da Lupe a imagem da última vez em que nos encontramos. Ela havia passado por transplante de medula e feito quimioterapia há poucos meses. Sofrera muito com os efeitos colaterais e nesse período em que precisava manter-se isolada, nos falávamos pelo WhattsApp , trocando palavras esperançosas e imagens bonitas de lugares, pessoas e flores. Mas ela tinha saído vitoriosa daquela batalha e numa tarde bonita e fresca, de céu muito azul como costuma ser o de Franca na maior parte do tempo, nos encontramos fortuitamente no estacionamento de um supermercado.

Ouvi sua voz inconfundível chamar meu nome, virei-me, e a vi linda, com um lenço multicolorido enrolado na cabeça de forma faceira. Exibia um brilho na fisionomia, denotando a alegria de quem havia recuperado a saúde. Nos abraçamos entre risos, ela me mostrou a chave do carro em suas mãos e contou que havia feito uma travessura: tinha saído de casa sem avisar, sentira vontade de dirigir, desejara o ar em seu rosto, queria escolher os alimentos como sempre gostara de fazer. Lembramos então do domingo em que ela havia preparado um almoço cubano para nós, na casa de Milena e Junior, e eu lhe confessei minha incapacidade de replicar sua receita de plátanos verdes fritos.

Nos despedimos com um abraço fraterno; e ela me falou: - Bueno, nos vemos.

Compartilhando sua fé em outra vida, digo-lhe agora que ela se foi antes: -Hasta luego, cariño.
 



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