02 de abril de 2020

Nossas Letras

Quarentena

A vida, essa imprevisível, com frequência muda os planos que fazemos na nossa ridícula ilusão de que nada há de nos atrapalhar.

Nossas Letras 21/03/2020 - Repórter: Sônia Machiavelli
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A vida, essa imprevisível, com frequência muda os planos que fazemos na nossa ridícula ilusão de que nada há de nos atrapalhar. Talvez porque seja doloroso admitir que somos pequeninos seres com enormes pretensões, nós, humanos, nos esquecemos de que no planeta há milhares de outras espécies cuja lei de sobrevivência funciona tanto quanto a nossa. Para o coronavírus, a lógica é sobreviver com nossas células, que eles invadem para que lhes sirvam de habitat reprodutivo e alimento. No caso, o menor come o maior, numa inversão da cadeia alimentar, e se torna o inimigo da humanidade.

Então, é preciso evitá-lo a quaisquer custos. Um desses, o isolamento, especialmente se você tem mais de sessenta anos e é responsável o suficiente para entender que o problema não é só seu. O vírus pode contaminar as pessoas num triz. O presidente da França diz que vivemos uma guerra. No Brasil a voz oficial usou o termo calamidade. É a mesma coisa.

Permaneço em casa trabalhando online, lendo, assistindo a documentários que possam me trazer um pouco mais de lucidez sobre as pragas que assolam o planeta. Foi assim com a gripe espanhola, que matou entre 50 e 100 milhões. Na época minha mãe tinha sete anos e morava na casa onde nasceu e cresceu na rua Barão de Passos. Resgato lembranças que povoam minha memória a partir de cenas descritas. Foram tão impactantes para ela que as reproduziu verbalmente, com detalhes, até o fim de sua longeva existência.

Contava que pessoas morriam como moscas. A funerária local não conseguia mais atender à demanda de caixões; os corpos eram envoltos em lençóis e empilhados em carroções conduzidos por homens mascarados. Uma visão tétrica, mas real, cuja similaridade chamou a minha atenção numa transmissão de TV na sexta-feira. Sem poder providenciar cerimônia de sepultamento para o marido com quem partilhara sessenta anos, uma velhinha italiana chorava de fazer dó, vendo à distância afastar-se o caixão no meio de muitos outros.

Minha mãe sempre se surpreendeu com o fato de que as crianças não adoeciam. Talvez por isso, e driblando a vigilância dos pais, sentava-se com amigas na calçada, vendo passar os carroções com defuntos. A repetição frequente da cena macabra parecia ter espantado o medo. Ao avistar na ponta da rua o veículo sinistro, as meninas corriam e se agarravam na traseira, descendo a ladeira até chegar a uma pracinha. Voltavam a pé e esperavam o próximo. Outra história que me chegou foi a de um farmacêutico, vizinho de meus avós, que passou a vender remédio para curar a doença. Teria ficado rico, se o bicarbonato misturado com farinha o tivesse livrado do carroção.

De tanto ouvir essas narrativas, o medo de pandemias fez morada num cantinho de meu coração. E por conta da quarentena auto imposta, relatos antigos irromperam com força. No meio deles, uma frase na voz materna: “A cada cem anos surge um flagelo novo” . Fiz as contas. A gripe espanhola foi o horror do anos 1918-1920. O coronavirus irrompeu na China em novembro de 2019. Um século. Pode ser coincidência. Ou não.
 



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