01 de junho de 2020

Gazetilha

A revolta, de novo

Ainda me lembro como se fosse hoje, apesar de terem se passado já mais de 30 anos.

Gazetilha 29/03/2020 - Repórter: Corrêa Neves Júnior
Foto de:
“A sabedoria e a ignorância se transmitem como doenças, daí a necessidade de se saber escolher as companhias”

William Shakespeare, escritor e dramaturgo inglês

Ainda me lembro como se fosse hoje, apesar de terem se passado já mais de 30 anos. Cursava a sétima série na escola Dinâmica Espiral, bem pertinho do Poliesportivo. Adorava as aulas de história da professora Vera Irene. Os ensinamentos daquele tempo foram muito úteis ao longo da minha vida pessoal e profissional. Continuam sendo hoje, tanto num caso quanto no outro.

Foi por estes tempos que estudamos um episódio curiosíssimo da nossa história, a Revolta das Vacinas. Tudo aconteceu em 1904, no Rio de Janeiro, então capital do país. Havia muitas doenças infecciosas, como febre amarela e varíola, que matavam centenas de milhares de brasileiros. O problema era gravíssimo.

O então presidente da República, Rodrigues Alves, convidou o médico sanitarista Osvaldo Cruz, que havia estudado em Paris no instituto Louis Pasteur, para assumir a função de Diretor de Saúde Pública. Osvaldo Cruz tinha sido muito bem sucedido coordenando uma campanha sanitária para erradicar, anos antes, a peste bubônica das docas do porto de Santos. Mas nada se comparava à missão que teria pela frente.

Cruz convenceu o presidente a implantar pela primeira vez a atividade dos “mata-mosquitos”, hoje conhecidos como agentes de vetor, que combatiam o aedes aegypt. Conseguiu também que o presidente decretasse, pela primeira vez, a vacinação obrigatória. Era o único jeito de enfrentar a varíola. Mas, a população rechaçou. Houve uma revolta, que quase termina em golpe de Estado. Tudo por conta da vacina.

As pessoas reclamavam de ter que abrir suas casas para os “mata-mosquistos”. Os comerciantes se queixavam dos prejuízos para a sua atividade com os estabelecimentos que às vezes precisavam fechar. Protestavam contra a obrigação de se vacinar, porque acreditavam que a dose “fazia mal”.

Houve quem organizasse protestos, atacaram jornais, quase mataram Rodrigues Alves. Mas Osvaldo Cruz seguiu obstinado, com sua missão, enquanto viveu. Morreu muito jovem, ainda com 45 anos. Mas antes, e apesar da ignorância de tantos, salvou milhões de vidas.

Naquele tempo de sétima série na Dinâmica, fiquei estupefato com a história. Parecia absurdo demais que décadas antes, diante de um médico que mostrava que a vacina salvava vidas, tantos preferissem atacá-lo. Vera Irene, a professora, explicava que muito era explicado pelas precárias condições sanitárias e pela ignorância geral da população, majoritariamente analfabeta e desempregada.

Nunca poderia imaginar que, três décadas depois, numa sociedade extremamente conectada e com uma oferta de informações como nunca antes a humanidade experimentou, viveria situação semelhante àquela dos tempos de Osvaldo Cruz.

Estamos diante da pior crise de saúde dos últimos 100 anos. Vivemos à beira da maior catástrofe econômica de todos os tempos. Nada menos de 35% da população do mundo segue confinada em casa, em todos os continentes. Praticamente todos os líderes mundiais, inclusive o presidente americano, se preparam para medidas ainda mais restritivas. Ninguém saírá ileso, não haverá nenhuma pessoa que não será afetado pelo coronavírus ou suas consequências.

Ainda assim, muita gente se comporta como se tudo fosse “histeria”, um “exagero” da mídia, um “complô” para prejudicar este ou aquele político. Querem retomar o funcionamento das fábricas, querem abrir os comércios, querem bares e restaurantes de volta, querem aulas nas escolas. Eu também quero, mas agora não é a hora.

Quem pensa que basta abrir tudo para que o mundo volte ao que era antes comete um erro infantil. Não haverá para quem produzir, nem para quem vender. A recuperação não será automática. E, neste instante, há um vírus que contagia, adoece e, no limite, mata. Não duvidem disso como tantos duvidaram de Osvaldo Cruz. O Brasil é outro, sem dúvida. Torço para que seja também melhor.
 



COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

  • Pedro
    29/03/2020 4 Curtiram
    O povo pensa com o dinheiro não está pensando com a saúde os q se diz empresários vai cuidar de seus funcionários vai ata não é revolta é iguinorancia e outra o mundo tá parado vai vender pra quem cuide de quem vc ama trabalhadores porque ninguém irá cuidar pra vcs esse é minha mensagem
  • Francisco Matos
    29/03/2020 4 Curtiram
    Grande parte do gado segue fielmente seu condutor a caminho das trevas.
    • joao
      31/03/2020 1 Curtiu
      Choca nao chiquinho, 2022 esta ai e vamos reeleger BOLSONARO, EM 2026 E 2030 SERGIO MORO, pro desespero dos esquerdopatas doentes, vagabundos...
    • Darsio Batista
      01/04/2020 2 Curtiram
      Vamos sim, João. Vamos eleger o bozo para presidente de curral. Afinal, somente que se posta como gado seria capa de votar nesse sujeito. Não fique bravo. Coma capim que passa, mas o seu bozo está com os dias contados.
  • Arnaldo Donizete Padilha
    29/03/2020 2 Curtiram
    Sim,esses acontecimentos dos últimos dias,sem dúvida alguma é um prato cheio para os canhotos,que estão apreciando esse manjar dos deuses,presente que muito bem orquestrado,por forças que planejam o poder absoluto,pós \"pandemia \";Aliás se não fosse os números alterados,seriam bem menores...
  • Tiago Queiroz Santos
    29/03/2020 1 Curtiu
    Sensacional. Ótima crônica, nada é novo no mundo das novidades.
  • Darsio Batista
    29/03/2020 3 Curtiram
    Pendo em procurar um advogado. Penso em processar cada um dos otários que colocaram essa asno no governo, sabendo-se que tínhamos vários candidatos e de diferentes perfis ideológicos. E, de antemão peço desculpas ao asno por lhe cometer brutal bullying.
  • Emerson
    30/03/2020 1 Curtiu
    90% dos manifestantes vão sob a pressão de seus patroes sob pena de perderem o emprego, lamentável como esses pequenos empresários de franca se acham o dono da cidade, sigam o exemplo do magazine luiza isso sim é uma empresa...
  • Helio Ferreira
    30/03/2020
    Concordo com você meu nobre Vereador. Mas nem todos estão bem financeiramente para ficar em casa como nossos governantes querem .abraço meu amigo.
  • Diva
    30/03/2020
    muito bom e real o texto, deveria ser colocado nas redes sociais para melhor divulgação.
  • Maycon
    30/03/2020
    Linda crônica. O mundo está sendo resetado!
  • Euripedes
    30/03/2020 1 Curtiu
    Rapaz????parabéns para vc eu que nunca fui muito fã dos seus comentários tenho de reconhecer,vc foi exato no ponto,muitas pessoas estão se comportando como se nada estivesse acontecendo,preocupadas apenas com o lado econômico,como vc msm citou,msm se o comércio e a indústria voltarem vamos produzir e vender pra quem????Não vai haver consumidor,triste e quem deveria estar dando o exemplo e conduzindo a população,E o primeiro a querer que td volte a ser como antes msm com a pandemia nem ter chegado ao seu ápice
  • Afonso
    01/04/2020 1 Curtiu
    Excelente artigo Junior. Em toda a imprensa brasileira são raros os casos de imparcialidade como você tem demonstrado.
  • RICARDO DONIZETE
    01/04/2020
    concordo com seu raciocínio mas acho que pra ajudar os pequenos empresários os bancos também teriam de tem fechado o que da desespero é você não faturar nada e tem as despesas e compromissos financeiros em andamento normal
Veja mais Corrêa Neves Jr

CLIMA EM FRANCA

25°
15°

MAIS LIDAS

COLUNISTAS

ECONOMIA Atualizado 1 hora atrás

  • Dólar Comercial:
    Data:
  • Dólar Turismo:
    Data:
  • Euro:
    Data:

LOTERIAS Atualizado 1 hora atrás

  • Mega-Sena:
    Sorteio: Data:
  • Quina:
    Sorteio: Data: