26 de janeiro de 2021

Gazetilha

Uma guerra, muitas batalhas

Aqui em Franca, o desafio segue imenso, agravado não apenas pelos radicais que rechaçam o isolamento social (...).

Gazetilha 19/04/2020

“Os espíritos vulgares não têm destino”
Platão, filósofo grego

 

No momento em que o ritmo de crescimento da pandemia do coronavírus acelera no país, matando mais de 200 brasileiros por dia e infectando outros 3 mil a cada 24 horas, vivemos um momento dramático. O foco de todos - que deveria estar concentrado única e exclusivamente no enfrentamento da doença, de suas consequências para o sistema de saúde e na inevitável crise econômica - acaba dividido com a necessidade de dispor tempo e energia, tão escassos, para enfrentar também a onda de descrença e negação disseminada pelos radicais seguidores do presidente da República.

Além dos problemas reais, têm-se que lidar com os delírios alimentados por essa corrente que ignora os fatos, dissemina o ódio e adota comportamentos que contribuem, e muito, para tornar a vitória sobre o coronavírus um desafio ainda maior. Rechaçar o isolamento social é o mais perigoso deles, mas não é o único. Qualquer um que defenda medidas de prudência e acredite na ciência vira alvo das sucursais do gabinete do ódio capitaneado, a partir de Brasília, por Carlos, o filho preferido do capitão. Os resultados são desastrosos, porque as teses apresentadas ora flertam com medicamentos que não funcionam, ora reduzem tudo a uma disputa eleitoral no Estado de São Paulo, como se todo o mundo não estivesse parado neste instante, ora insistem em bravatas que minimizam a gravidade da Covid-19. Para esses xiitas, como já disse e repeti várias vezes, é tudo “invenção”, “mentira”, uma “criação” da Globo, da Folha, do GCN.

Como não têm argumentos para apesentar a seus seguidores porque os campeonatos de futebol em todo o planeta estão suspensos, por qual razão não haverá Jogos Olímpicos neste ano, porque diabos cancelaram a NBA, a Fórmula 1, shows, aulas, palestras, simpósios, o funcionamento de bares, restaurantes, lojas e afins no mundo inteiro, recorrem ao mais rudimentar “apelo”: xingam. E como xingam.

Vociferam palavrões, destilam veneno, insuflam ataques. Nada mais sintomático da sua falta de razão. Poderiam apresentar, se fosse verdade o que apregoam, uma única evidência de que a vida segue normal no resto do mundo. Que nos Estados Unidos que idolatram não há quarentena. Que na Itália os restaurantes estão cheios de novo. Que na Inglaterra Boris Johnson provou que a doença é só uma “gripezinha” e retomou o comando do país, relaxando a quarentena e mostrando para todo mundo que não há motivo para medo. Como não conseguem, porque a realidade não é essa, recorrem às ofensas.

Infelizmente, a doença não espera que a consciência de todos esteja ativa para só então contaminar. Ela escreve sua história independente do que pensa a população de cada comunidade. Não escolhe quem contamina, nem quem vitima. Qualquer um que estiver a menos de 2 metros de distância e tiver contato com outro alguém que tenha o vírus, transforma-se imediatamente num alvo em potencial. Mais de 2 milhões foram infectados no mundo. E isso, considerados apenas aqueles testados – um número estimado em pelo menos dez vezes mais pode ter tido a doença e jamais vai saber. Quase 200 mil já morreram. Muitos outros tantos virão.

Aqui em Franca, o desafio segue imenso, agravado não apenas pelos radicais que rechaçam o isolamento social, mas também por dificuldades que mostram como é difícil combater esta doença. Alguns detalhes dos casos envolvendo a morte de Wesley Soares e a recuperação de Rosária Martins são emblemáticos para ilustrar o quanto ainda tem que ser feito para que se torne possível controlar a Covid 19.

No caso de Wesley, chama a atenção o fato de que, apesar de apresentar sintomas iniciais, passaram-se dias até que ele fizesse testes. Um deles, chegou a dar negativo, apenas três dias antes que sucumbisse para a doença. Mas o pior é que se passaram outros tantos dias até que começassem a testar os colegas que tiveram contato com ele. Quando começaram, identificaram pelo menos dois – um deles, uma advogada de Franca – também positivos para a doença. Essas pessoas, vítimas como ele, podem ter contaminado, involuntariamente, outros tantos. A pergunta, óbvia, é uma só: quando se tem um caso confirmado, por que imediatamente todas as pessoas que tiveram contato com o paciente não estão sendo isoladas até que sejam testadas e identificadas sua real condição?

É inacreditável constatar que o mesmo tenha acontecido com a família de Rosária Martins, a corajosa francana que teve alta nesta semana após permanecer mais de duas semanas internada numa UTI, entubada, lutando pela vida com a ajuda de médicos e enfermeiros que, como ela já disse, se tornaram sua “nova família”. Foram duas semanas entre a vida e a morte, com diagnóstico confirmado para a Covid 19. Mas neste período, seu marido, seus filhos, seus netos não foram testados. Na última sexta-feira, constatou-se que também seu marido tinha a doença. Por muitos dias, ele tinha seguido normalmente com sua vida, sem grandes restrições. Pode, sem querer, ter transmitido a doença para mais alguém. Difícil saber. Mas é óbvio que, se tivesse sido testado mais cedo, os riscos poderiam ser substancialmente reduzidos. Graças a Deus, ele está bem. Os técnicos avaliam que, muito provavelmente, ele desenvolveu a forma leve da doença. É um alívio, mas o que aconteceu com ele expõe o risco que todos corremos.

É preciso ser claro. Não há testes para, praticamente, ninguém. Nem mesmo para as pessoas que convivem diretamente com pacientes confirmados para Covid-19. Nestes casos, como a regra geral, há apenas uma “recomendação” de quarentena. Mas os testes só são aplicados se desenvolverem os sintomas da doença, como febre, coriza e tosse. Quem é assintomático, não é testado, o que não significa que não tenha coronavírus. É o protocolo do Ministério da Saúde, mas precisa ser revisto. Urgentemente.

Há problemas também com o fluxo de informações, ainda desordenado, o que piora a luta porque fomenta, ainda que sem intenção, o discurso de ódio dos negacionistas. Há hospitais mais abertos e profissionalizados, como a Unimed, que divulga detalhes do estado de saúde dos pacientes ali internados. Mas a situação não é regra. A Santa Casa pouco fala, e quando o faz, é sem detalhes. Ainda assim, melhor que o Regional, que nada fala. Não se sabe, neste instante, se alguém está internado lá, se quem esteve já recebeu alta, nem quantos atendimentos foram feitos no combate à doença.

A Vigilância Sanitária de Franca, comandada pelo valente Felipe Granzotti, tem que se desdobrar em múltiplas atividades. São os responsáveis por cuidar da vacinação, da fiscalização dos comércios e também dos relatórios consolidados da Covid 19. É muita coisa para pouca gente. É preciso reforçar as equipes, o quanto antes. É preciso refinar os boletins epidemiológicos diários, incluindo também os pacientes que estão sendo tratados para síndromes respiratórias. Não resolve, mas pelo menos é um indicativo. Como ninguém é testado, ajuda a dimensionar o tamanho que o problema pode, realmente, ter neste instante.

Há muitos desafios pela frente, no mundo inteiro. É óbvio que, mais dia, menos dia, a quarentena termina. Isso, nem de longe, implica dizer que a Covid 19 será um problema resolvido. Até que se tenha um remédio, ou que se desenvolva uma vacina, o que tanto num caso como no outro demanda tempo, o coronavírus seguirá assombrando o mundo, contaminando gente, matando pessoas. Espera-se, controlada a fase crítica, num volume menos terrível.

Até que se chegue a uma cura, só nos resta manter o discernimento e agir com prudência, indiferentes ao ódio de tantos, seguindo o que os médicos e especialistas recomendam. Quem defende a quarentena também quer retomar a normalidade. Apenas acredita que isso tem que ser feito quando a disseminação da Covid-19 estiver controlada e o sistema de saúde tiver condições de atender os doentes. Vivos, poderemos muita coisa – inclusive, criar soluções e alternativas para um mundo que não voltará a ser o que era. Mortos, seremos lembranças. E, se seguir em frente em meio a uma grave crise econômica é difícil, com o fantasma do desemprego e da falta de dinheiro assombrando todo mundo, a alternativa é muito pior. Porque de lembrança, ninguém vive.
 

Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - junior@gcn.net.br



COMENTÁRIOS

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  • Hernane augusto
    19/04/2020 2 Curtiram
    Porque vocês da mídia não areuman soluções para pessoas como eu ficar em casa com minha família isolada deixar de pagar meu aluguel nesses 3 meses por isso tenho que sair para trabalhar meus alimentos acabaram e nenhum bosta entendedor da mídia veio em minha casa trazer alimentos e são omissos porque pedi informações para saber se sabiam onde estavam dando cesta até agora nem respostas tive,eu tive que trabalhar o dobro do que estou trabalhando para por comida na mesa de que vale este isolamento se muitos estão trabalhando,porque nunca precisei de receber coisas do governo do Estado e agora que preciso também está sendo negado porque não tô pedindo dinheiro mas alimentos p mim e prós meus filhos,luz chegou mais caro e com recado não deixe de pagar,não vamos cortar mas mas na hora que passar este problema várias pessoas vão ficar com suas energias cortadas,aí vc olha p mesa vê que tudo acabou e olha p governo do Estado que até agora não fez nada para parar as cobranças neste periodo,o que tenho que fazer trabalhar porque tenho certeza que se eu não sair p fazer isso assim que eu não pagar pelo menos meu aluguel vou morar na rua e correr mais ainda o risco de pegar este virus.so achan que os que recebem bolsa família tem fome?
  • Darsio Batista
    19/04/2020 3 Curtiram
    Mas o que pensar de pessoas que acreditam na ideia de Terra plana, por mais que tenham acesso a imagens orbitais. Que negam o evolucionismo e, que numa total demência dizem que o homem veio do macaco, algo veementemente negado pela ciência. Que vivem chamando a tudo e a todos de comunistas, mas que se quer sabem o significado de comunismo, muito menos suas bases epistemológicas. Que dizem se tratar de uma gripezinha, o covid19. Que pouco ou em nada se importam com as pessoas que estão perdendo os seus entes queridos. Que fazem carreatas ridicularizando a epidemia, mas que se negam a sair de seus carrões para não se disporem ao vírus. Que defendem o uso indiscriminado da cloroquina, ignorando os médicos que, como se sabe, passaram anos e anos estudando ciência pura. E, que agora passam a defender o uso do medicamento Annita, usado no tratamento de diarreia. Parece uma piada, mas é diarreia pura que sai das bocas desses boçais. Que maldosamente vivem produzindo e proliferando notícias falsas para propositadamente ofender e ridicularizar pessoas, instituições e órgãos. Que defendem a maldita Ditadura militar, aquela mesma que torturava e matava todos aqueles que lutaram pela democracia, pelas liberdades e pela justiça social. Governos Militares pintados de honestos e éticos, mas que nos afundaram na maior dívida externa do hemisfério sul e que desapareciam com todos aqueles que viessem a denunciar corrupção cometida por eles. Por tudo isso e mais, fica fácil entender que os bolsominions nada mais são do que a ignorância no seu mais puro e completo significado e que, portanto, devemos ao sucateamento da educação, a produção dessa escória da sociedade. E, não vão esperar que eles opinem, pois para tal propósito jamais tiveram a mínima capacidade. Certamente, aparecerão aqueles que ridicularizará o artigo em questão, mas como já dito anteriormente, nada se pode esperar dessa gente cometida de anencefalia e, logo, vamos ignorar as trocentas fezes que saem de suas bocas.
  • Wilson Silva
    19/04/2020 6 Curtiram
    Pra quem recebe salário de vereador , que não é pouco pelo que faz e ainda tem uma empresa como o Gcn , fica fácil julgar quem só tem um salário que dá só pra sobreviver, aí pra você é fácil falar para as pessoas ficarem em isolamento, pense um pouco e se coloque no nosso lugar, depois você vai e faz uma matéria sobre o que você pensaria se tivesse no nosso lugar.
  • João Carlos da Silva Filho
    19/04/2020 5 Curtiram
    No Brasil temos a GliboLixo, em Franca temos o GCN/Lixo e a Difusora/Lixo, liderados pelo também lixo Correia Júnior
    • Darsio Batista
      20/04/2020 1 Curtiu
      Me responda a seguinte pergunta: Alguém está lhe obrigando a acessar o site do GCN e ler as suas notícias e artigos? É óbvio que não e, portanto vá procurar algo do seu gosto para ler, meu caro. Talvez um artigo sobre a teoria da Terra plana. Sei lá, qualquer coisa, desde que não encha os nossos ouvidos de merda.
  • Fantasma do Zé Amin
    19/04/2020 1 Curtiu
    Excelente texto. Preciso, objetivo e lúcido. Mas, certamente, daqui a pouco a turba de minions enfurecidos virão, relinchando ensandecidos, na defesa de seu mito, dizendo que tudo não passa de uma doença comunista, inventada para desestabilizar seu líder naquilo que seria o desígnio divino de transformá-lo em Imperador da Terra! Faltará capim para tantos burros, com crise ou sem crise!
  • Ilton antonio ferreiras
    19/04/2020 1 Curtiu
    Rechaçar o isolamento social é o mais perigoso deles, mas não é o único. Qualquer um que defenda medidas de prudência e acredite na ciência vira alvo das sucursais do gabinete do ódio capitaneado, a partir de Brasília, por Carlos, o filho preferido do capitão.\" Cala te seu lacaio! Então voce acha que ninguem pode discordade de vc? Cata te. Seu analfabeto! Voce é conivente com esse governador inescrupuloso? Cala te.
  • Luis gustavo dal sasso
    19/04/2020 3 Curtiram
    Junior concordo que a pandemia e muito grave e bem como com o isolamento. Porém por enquanto somente os trabalhadores e empresários e que estão pagando a conta. Você não acha que todos os políticos, ministros e secretários de todas as esferas já deveriam ter seus salários reduzidos em 50% ? E bem como os fundos eleitoral e partidário ser usado para combater a pandemia ? Porque realmente passa a impressão de briga política por enquanto.
  • ADILSON GONÇALVES PARREIRA
    19/04/2020
    Respeito sua opinião, mas, eu penso que a volta da abertura do comércio e das indústrias em geral, lógico que com medidas essenciais de prevenção não irão contribuir para um agravamento quanto a disseminação da doença e por outro lado ainda evitaria um caos ainda maior pela debilitação financeira da nação, dos empresários e por conseguinte de toda a população brasileira.
  • Darsio Batista
    20/04/2020 1 Curtiu
    Respeito e compreendo as opiniões daqueles que desesperadamente precisam trabalhar. É perfeitamente compreensível a reivindicação da reabertura do comércio. Mas, o que eu não aceito é a defesa desse débil que nos governa. Um asno que, não mede a abertura da boca para vomitar asneiras e mais asneiras. Um asno aconselhado por três filhotes asnos e, vangloriado por um bando de asnos. Que o coitadinho do asno me perdoe pela horrível comparação.
  • Francisco Matos
    21/04/2020 1 Curtiu
    Pela uúltima eleição e pelas ainda reiteracoes de apoio a um psicopata, vejo que o Brasil não tem cura. Aqui em Franca o doentes estão em estado mais grave. Precisamos urgentemente criar ou contruir grandes hospitais psiquiatricos. O Allan Kardec é pequeno demais para atendimento de tantos doentes mentais que pedem intervenção militar.
  • Alexandre
    22/04/2020 4 Curtiram
    Todo mundo tem uma opinião formada sobre o que esta acontecendo...porém ao invés de pessoas influentes como os senhores orientar sobre a real situação que passamos ..usam os meios de comunicação para se promover e denegrir a imagem de quem não concorda com os senhores...por favor ...de coração ajudem a melhorar nosso BRASIL no seu caso Correia nossa Franca...não faça seu leitores de bobos e respeite a opinião politica da cada um...
  • Jose osmar
    23/04/2020
    O virus e real ,mas qualquer infectologista sabe de cor e sateado que todas pandemias tais como gripe espanhola ,h1n1,sars, gripe suina,e outras se encerram inesplicavelmente derrepente ou ate chegar a imunidade de 70 por cento atraves de contagio, portanto nao e justo que para preservar uma minoria ,se sacrificar uma nação inteira digo isso mesmo eu tendo 65 anos e sendo pessoa de risco ,que prevaleca o bom senso nao se trata de defender nenhuma posição politica
Veja mais Corrêa Neves Jr

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