05 de junho de 2020

Nossas Letras

Landau

Não era tempo das diligências, mas quase. Década de 80, a família andava no Galaxie Landau, prateado - Lúcia H. M. Brigagão.

Nossas Letras 17/05/2020 - Repórter: Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Foto de: Divulgação
Não era tempo das diligências, mas quase. Década de 80, a família andava no Galaxie Landau, prateado. No banco da frente - cintos não eram obrigatórios apenas se sugeria a possibilidade politicamente correta de usá-los – iam o motorista, acompanhante, colchãozinho e o bebê. No banco de trás, a menina, dois meninos e ou Maria, espécie doce e querida de apêndice familiar ou a Sogra. Nos trajetos mais curtos, ambas, com os três meninos no meio. Foram muitas e boas as viagens. Certa vez, a bordo do Landau novinho, a família fez a costa paulista via beira-mar  saindo de São Sebastião e chegou ao Rio de Janeiro. Três semanas memoráveis. Dias lindos de abril, nem quente, nem frio. Quase nenhum perigo, poucos carros nas rodovias, pouquíssimo conforto oferecidos por postos bem montados, mas o porta-malas do Landau era um pequeno apartamento: tinha colchonetes, roupas de cama para cobri-los, bacias para banhos rápidos nas crianças,  toalhas de banho,  brinquedos, coolers com refrigerantes,  piniquinho, caixas com mini-mercado: refrigerantes, bolachas, aperitivos. Viajar com a família no Landau era sair em excursão, rumo à felicidade. Da maioria dessas viagens temos ótimas recordações. Sem respeitar ou precisar acontecimentos na linha do tempo,  teve a vez que ele pifou na Serra de Santos. A lembrança é de carros menores subindo a serra num fim de tarde de domingo e, ao passarem pelo Landau enfumaçado, o pessoal gritando “Pois é!” para os infelizes ocupantes daquele carrão com o capô aberto de onde saia densa fumaça... Teve a viagem de Franca a Salvador, com paradas estratégicas em Belo Horizonte, Vitória do Espírito Santo, Porto Seguro, Ilhéus e Salvador. Sob o banco da frente, o revólver que dava segurança aos adultos pais, que nunca seria usado, felizmente. Mania de escrever, está guardado o diário daquela viagem que pontua cidades e regiões por onde passamos, fatos curiosos, observações pertinentes das crianças, experiências inolvidáveis como a visão dos barracos nos morros na divisa Minas-Bahia. À incidência dos raios de sol na ladeira,  brilhavam nos jiraus das casas simples bacias e panelas de alumínio. De longe, pareciam flashes. Na época os sapateiros de Franca tinham cartaz em Brasília. Volta e meia recebíamos convite para festas na capital federal. A mais espetacular delas, e ainda na memória,  a Comemoração da Revolução Russa, no prédio da Embaixada. Fomos em dois Landaus. Couberam em cada carro, confortavelmente acomodados para a viagem de quase oito horas, sete adultos, três no banco da frente, quatro no banco de trás. Dois carros, catorze pessoas nem gordas, nem magras, relativamente jovens e muito, muito chiques... Nos porta-malas, malinhas, maletas, frasqueiras e tralha dos ocupantes. Na volta, ainda couberam rolos de capim dourado, maços de  flores secas, pedras semi-preciosas comprados nas ruas brasilienses, e as garrafinhas de vodca que o Embaixador Russo colocou nos bolsos e bolsas dos francanos, à saída da festa... A indústria automobilística mudou. Quando nosso último Landau pifou, os filhos deram graças a Deus, pois que não teriam mais o constrangimento de andar de “banheira” pelas ruas da cidade... E nós demos adeus ao icônico carro,  inteirinho feito de ferro, com tanque de gasolina que esvaziava facilmente: bastava pisar fundo no acelerador duas vezes que o ponteirinho do combustível descia pela metade. Era, ainda, imponente, confortável e espaçoso. Um clássico... 



COMENTÁRIOS

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  • Immer Sonnen
    21/05/2020
    Bela história de tempos idos, tempos de casa grande e senzala. Luxos que eram sustentados pela mais valia de mãos machucadas e costas envergadas de fazer sapatos. Enquanto o capital ia de Landau, o trabalho ia de bicicleta. Opulência que resultou em falência.
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