04 de agosto de 2020

Nossas Letras

Canhoto

Eu tenho sete anos completados em janeiro e sou analfabeto de pai e mãe. Logicamente quem está escrevendo isto é a reminiscência futura de quase setenta anos. - Roberto de Paula Barbosa

Nossas Letras 11/07/2020 - Roberto de Paula Barbosa
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Eu tenho sete anos completados em janeiro e sou analfabeto de pai e mãe. Logicamente quem está escrevendo isto é a reminiscência futura de quase setenta anos. No ano passado, quando estava com seis anos, eu frequentava o Jardim da Infância e sob o olhar atento da Professora Dona Sônia - não se chama a mestra de Tia - a minha vida e a de meus coleguinhas se resumia apenas em brincadeiras, desenhos infantis com lápis de cores variadas, alguns joguinhos e, de vez em quando, uns passeios por ruas e praças da nossa Franca, formando uma fila dupla, mais ou menos organizada, de uma molecadinha vestindo seus uniformes brancos de marinheiro, cada qual carregando sua lancheirinha. A alfabetização está restrita apenas a partir do primeiro ano escolar. Quando não estou na escola, brinco na rua com outra molecada, pois moro numa que termina em um buracão, palco de muitas brincadeiras de esconder e de vaqueiros, para depois ir se refrescar no córrego do Cubatão, próximo das mulheres da Santa Cruz, que vem lavar roupas por ali. Isso, lógico, as mães não podem saber.

Agora estou iniciando o primeiro ano, onde efetivamente devo aprender a ler e a escrever, mas tem um problema: sou canhoto. Não sei se vocês sabem, mas dizem que dez por cento da população é canhota e o preconceito contra estas pessoas vem de longa data. Muita história a respeito, mas tirando alguma gozação ou estranhamento nunca me prejudicou.

Meu pai tem uma sapataria bem em frente à Cadeia Pública, cujo prédio fica nos fundos da Escola Cel. Francisco Martins, onde estou começando as primeiras letras. Como sou menino, a ordem é para sair da escola, atravessar a rua e ir diretamente para a oficina, de onde meu pai me leva para casa na hora de ele ir embora. Enquanto fico na sapataria, meu serviço consiste em passar o ímã no chão para ajuntar as tachinhas e preguinhos espalhados e separar as certas das tortas. Depois, com um martelo na mão esquerda e um pé de ferro vou endireitando essa matéria-prima imprescindível na construção de um calçado. Outras vezes passava grude, feito de polvilho e água fervente, ou cola nos solados que eram aplicados nos sapatos. Também estou aprendendo a fazer tacão, que é um tipo de salto feito apenas com pequenos retalhos de sola, colados com grude e afixados com os preguinhos recuperados. Para cortar as rebarbas dos pedaços de sola, para dar formato de salto, uso uma faca de sapateiro, de uso exclusivo de uma pessoa destra. Aí sou obrigado a usar minha mão direita. A faca de sapateiro para canhoto tem que ser forjada especialmente e meu pai não vai gastar dinheiro com isso.

Voltando à escola, hoje, primeiro dia de aula, estando todos os alunos sentados em suas carteiras para dois meninos, a Professora Dona Maria, baixinha e gordinha, à frente da classe, sobre um pequeno tablado, levanta um caderno e mostra como se abre a capa e, na primeira página pautada, demonstra como devemos desenhar a bolinha com um rabinho, formando a letra “a”, desenhando-a na lousa. Depois mostra como se deve segurar o lápis entre os dedos para poder escrever. Os meninos obedecemos, mas eu já abri o caderno pela capa traseira e segurei o lápis com os dedos exatamente como ela demonstrou, com a diferença que eu usei a mão esquerda. Tentando desenhar a bolinha para que ficasse bem redondinha e depois puxar o rabinho, todos muito concentrados, não vimos a Professora Dona Maria passando carteira por carteira nos corredores alinhados, portando uma régua de madeira, de uns cinquenta centímetros, parando ao meu lado e, num segundo, dar-me um reguada tão forte sobre a minha mão e simultaneamente berrando: “É com a outra mão, seu burro!”. O lápis desapareceu e as costas de minha mão ficaram com um vergão que tive de esconder para que meus pais não o vissem, pois ainda arriscava de apanhar em casa, se soubessem.

Eu não costumo desejar mal a ninguém e nem mesmo à dita professora, mas acredito que ela deverá ficar abraçada ao capeta por muitos e muitos anos, quando ela partir desta para uma melhor, se bem que o dito cujo provavelmente não vai aguentar, pois a sua maldade não deve ser pior que a da professora.

Assim, embora seja canhoto, só escrevo manualmente com a mão direita, cuja letra é de fazer inveja a muitos médicos ao aviar suas receitas. Também uso a mão direita para executar algumas tarefas com ferramentas próprias para pessoas destras e que dificultam sobremaneira o uso pela mão sinistra, tais como tesouras, abridor de latas, apontador de lápis e outras mais. Ainda bem que tenho uma certa habilidade para o uso das duas mãos. No arremesso manual, no uso do estilingue, no futebol e quaisquer outros jogos, o uso dos membros esquerdos é primordial e não há como usar os destros.

Nunca me senti prejudicado por ser canhoto e nem tenho traumas por isso, mas que a professora irá ficar nos braços do capeta por muito tempo, ah isso vai.

(Aluno do primeiro ano, 1952)



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