04 de agosto de 2020

Nossas Letras

Resistência de ferro

A panela mais que centenária, inalterada na sua condição de continente e no seu desenho, embora visíveis as cicatrizes, me faz pensar nos humanos que permanecem íntegros mesmo submetidos a pressões que só termômetros específicos medem - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 18/07/2020 - Sônia Machiavelli
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De meus gostos pela culinária sabem os amigos e leitores que me honram com sua atenção. Daí, é normal que eu viva em busca tanto de receitas como de utensílios domésticos. Novos equipamentos facilitam bater bolos, extrair sucos, cortar legumes e são bem-vindos. Itens antigos como tachos de cobre, caldeirões de alumínio batido, almofariz de bronze vão além da capacidade de conter e trazem história. E é aí que entra certa panela de ferro, fundida na cidade mineira de Cláudio, com registro numerado: 087-381 e data de fabricação: 1903.
 
Naquele ano, a República havia completado 14 anos. Era uma adolescente- estágio do qual parece nunca ter saído. No comando do país estava Rodrigues Alves, empreendedor de grande reforma sanitária no Rio de Janeiro. Enfrentou com rigor a rebelião popular contra lei federal que obrigava toda a população a vacinar-se contra a varíola. A campanha para convencer o povo a se livrar da peste foi dura e contou com a determinação do cientista Oswaldo Cruz. Inimigos da ciência sempre estiveram a postos.
 
Naquele ano, a Abolição da Escravatura chegava ao seu 15º aniversário. Os ideais libertários, contudo, haviam permanecido apenas na letra morta da lei assinada pela princesa Isabel. Da noite para o dia, escravos assustados tinham sido lançados na rua da amargura, obrigados a comer o pão que o diabo amassou. Sem nenhum preparo, habituados à rotina da senzala, pois até aos maus tratos as pessoas se acostumam (embora não devessem), ficaram vagando ao deus-dará e formaram a gênese dos milhões de excluídos do país.
 
Naquele ano, nascia o grande nome da música popular brasileira, Ary Barroso, autor de centenas de composições, algumas cantadas até hoje, como “Aquarela do Brasil”. Em outro clássico, “No tabuleiro da baiana”, ele fazia referência à quituteira negra que mantinha vivas as tradições culinárias de origem africana vendendo seus produtos nas ruas de Salvador: “vatapá/ caruru/ mungunzá...” Mas não acarajé, que por conta de sonoridade não entrou na letra. Como dirá depois CDA, “se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima e não uma solução”.
 
Mundo, mundo, vasto mundo. Fiquemos com os quitutes que a baiana preparou em panelas de ferro, como a que comprei em priscas eras numa viagem pelo interior, em estrada de terra onde se enfileiravam barracas de produtos típicos. De cara me interessei por ela, embora nem grande ou bonita fosse. Talvez fizesse diferença sua tampa de pedra, em algum momento trincada, sabe-se lá como.
 
Durante anos ela ficou esquecida no fundo de um armário. Até que na última quarta-feira fui à faxina e, surpresa, a reencontrei. De cara senti vontade de usá-la e para tal a lavei. Ao virá-la no enxágue, vi os números que nunca tinha percebido. Muitas perguntas me assomaram. Por quantas mãos aquela panela teria passado? Em que fogões e cozinhas se estabelecera? Que texturas e sabores acolhera? Quais Brasis alimentara? Nenhuma resposta, só a certeza de que suportara temperaturas de altíssimas a brandas, enquanto as chamas consumiam a lenha e depois se apagavam lentamente, brasas se transformando na cinza das horas.
 
A panela mais que centenária, inalterada na sua condição de continente e no seu desenho, embora visíveis as cicatrizes, me faz pensar nos humanos que permanecem íntegros mesmo submetidos a pressões que só termômetros específicos medem e levaram o Dr. Freud a escrever que “somos feitos de carne, mas devemos viver como se fôssemos de ferro”.
 
Nosso presente histórico pede resistência férrea aos desmontes e às ameaças à vida. Enquanto outro tempo não chega, vale apelar para lembranças, história, afetos, memórias, leituras, o livre-pensar e a escrita- até mesmo essa sobre achado inusitado.


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