08 de agosto de 2020

Nossas Letras

Por que escrever?

Aos escritores, no seu dia - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 25/07/2020 - Sônia Machiavelli
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Por que os ficcionistas se debruçam sobre o léxico e colhem palavras com as quais constroem mundos tão diferentes daquele onde habitam, apesar da verossimilhança que impede o absoluto império do caos? Onde os motivos que os mobilizam de jeito exigente? Quais as fontes de onde brota a inspiração? De que regiões da alma jorram os lugares, as criaturas, os objetos, aqueles índices que compõem o universo das narrativas? São indagações que se ouvem com frequência da parte dos leitores. Pois saibam os interessados que a gênese de todo texto cerca-se sempre de muito mistério.
 
Há os que dizem, em diferentes formatos e idiomas, que escrever é ato de amor- a si, ao outro, ao universo, às palavras; um exercício de resistência aos que investem contra a vida; e, ainda, certa maneira de viver ou sobreviver às adversidades. Escreve-se quando a delicadeza vai desaparecendo do cotidiano como algumas aves em extinção; o logro se agiganta e ganha tentáculos para sufocar a verdade com gestos, palavras ou omissões; a arrogância e o narcisismo engendram monstros inomináveis, incapazes de qualquer compaixão; o autoritarismo procura anular a individualidade a qualquer preço; o desdém explícito ou camuflado esmaga a esperança; e a inveja não consegue disfarçar sua biliosa face porque não, eu não quero o que você tem, quero que você não tenha! Acho que se escreve também para não sucumbir a um punhado de opressões, às ofensas que humilham, às angústias que estreitam as artérias e podem implodir o coração.
 
De uma coisa o tempo me trouxe certeza: um escritor não escreve apenas com o que vê, escuta, lê, aprende, relembra, inventa, sonha, imagina. Ele escreve “com tudo o que leva dentro de si, e principalmente com aqueles íncubos que ele sepultou no mais profundo do subconsciente, porque não quer saber deles e porque sua existência o espanta e incomoda”, como ensinou Vargas Llosa. Espanta, incomoda e às vezes nauseia, eu ousaria dizer. Escrever não é tempo infinitivo, é gerúndio nas entranhas, tentativa de identificar gritos e sussurros quando menos se espera aflorando sob formas surpreendentes: tesoura, semente, corda, sangue, sal, carcaça, tranças, argila. Abelha na chuva, estridulação de cigarras, girassol retorcido, maçã mordida, ânfora quebrada, relógio derretido. Flores carnívoras, humores viscosos, amoladores de facas, soldadores de cobre, aranzel de ciganos. Baionetas de aço. Espinhos e cactos. Chá de losna. Chuva de granizo. O voo de um morcego entontecido pela luz. Bisontes desenhados nas paredes das cavernas. Garatujas em muros encardidos. Um sorriso sarcástico. A sucção da língua no céu da boca fazendo um clique.
 
Ou (vai-se saber!) apenas o branco ovo no disfarçado ninho da angola, que por algum motivo desconhecido o abandonou. Mas o ovo continua lá, na sua súbita função de indez.


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