08 de agosto de 2020

Nossas Letras

Os 100 anos de Florestan Fernandes (1920-2020)

Ressalto, de antemão, que, na brevidade de um artigo, é impossível captar sua figura ímpar, deixando, ao final, recomendações de leituras - Rodrigo Augusto Prando

Nossas Letras 25/07/2020 - Rodrigo Augusto Prando
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Imagem: Nexojornal
Florestan Fernandes completaria, em 2020, 100 anos. Faleceu, precocemente em 1995, por um erro médico. Portanto, a vida - sua trajetória acadêmica e política - e sua obra são, agora, rememorados e, por isso, dão a dimensão de sua grandeza, o maior cientista social brasileiro até hoje e um dos grandes autores da Sociologia contemporânea. Ressalto, de antemão, que, na brevidade de um artigo, é impossível captar sua figura ímpar, deixando, ao final, recomendações de leituras.
 
Florestan foi criança pobre na cidade de São Paulo nos de 1920 e 30. Sua mãe lavava roupa e trabalhava como empregada doméstica na casa de uma família da elite paulistana. A patroa de sua mãe, sua madrinha, não o chamava de Florestan, pois acreditava ser um nome deveras pomposo para filho de pobre; assim, chamava-o de Vicente. Tal fato sempre chamou minha atenção pela violência simbólica da elite, que, no caso, cerceava o direito do menino ao seu nome próprio. Florestan - Vicente - foi engraxate, garçom e representante farmacêutico. Na condição de garçom, entre servir uma mesa e outra, era, sempre, visto, nos cantos, com um livro nas mãos. Assim, clientes do bar onde trabalhava o estimularam ao prosseguimento dos estudos e, após fazer o curso de Madureza (supletivo) ingressou na Universidade de São Paulo, no curso de Ciências Sociais. Na USP, foi aluno dos mestres franceses - fundadores da universidade - e, ainda na Graduação, chamou atenção de seus professores pela sua qualidade intelectual e disposição para leitura e pesquisa de campo. Foi, ainda enquanto aluno, capaz de conjugar conhecimento teórico profundo e habilidades da pesquisa empírica.
 
Sua trajetória acadêmica foi meteórica e, rapidamente, estava ao lado de seus professores realizando pesquisas em parceria. Sua disposição para a leitura foi, muitas vezes, lembrada por Antonio Candido, bem como sua produção intelectual: livros, artigos científicos, artigos de opinião, palestras, conferências, etc. Realizou, com seu antigo professor, Roger Bastide, a pedido da ONU, uma pesquisa para investigar as relações raciais no Brasil, objetivando-se comprovar que éramos uma sociedade que havia conseguido avançar na direção de uma "democracia racial". As conclusões de Florestan, todavia, fez desmoronar o
 
discurso da democracia racial, especialmente, apontando a não integração do negro na sociedade de classes. Estudou, também, o folclore; os índios Tupinambá; as brincadeiras infantis e sua sociabilidade; a metodologia no bojo das Ciências Sociais; o capitalismo dependente e a revolução burguesa no Brasil; as revoluções (dentro e fora da ordem); as tensões entre o intelectual, o cientista e o militante; a república brasileira; enfim, uma ampla gama de temas fundamentais para a formação e desenvolvimento das Ciências Sociais. Foi, na USP, professor Catedrático da Cadeira de Sociologia e teve Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni como primeiro e segundo assistentes, respectivamente. Não foi apenas professor e pesquisador, mas orientou e formou uma geração de cientistas. Sua postura crítica incomodou os poderosos, mormente durante o Regime Militar, levando-o ao exílio após sua perseguição política a aposentadoria compulsória.
 
Politicamente, esteve, desde a juventude, ligado aos ideais socialistas. No entanto, na condição de professor e pesquisador foi rigoroso metodologicamente e não submeteu a ciência à ideologia e à militância política. Fez, obviamente, política - sem ligação partidária - ao se debruçar sobre temas atinentes à vida do homem simples, dos humilhados, "dos de baixo", dos negros, indígenas. Foi intelectual público de presença constante nos jornais, publicando artigos de análises estruturais e conjunturais, bem como concedendo entrevistas aos variados veículos de comunicação nacionais e estrangeiros. Participou de movimentos de defesa da escola pública e, nos estudos sobre os negros e o racismo, dialogou com o movimento negro. Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores e foi eleito deputado constituinte e, posteriormente, eleito deputado federal.
 
Afirmaram, alhures, que se Florestan tivesse publicado em inglês, francês ou espanhol, por exemplo, estaria, certamente, ao lado dos nomes mais expressivos das Ciências Sociais contemporâneas como Anthony Giddens, Boaventura de Sousa Santos, Manuel Castells e Pierre Bourdieu. Não tenho dúvidas. Florestan Fernandes agigantou-se no ambiente acadêmico de uma sociedade periférica. Sua linguagem, densa, conceitualmente profunda, era - e é ainda hoje - de difícil acesso. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), minha cidade natal, está seu acervo, muito bem cuidado e
 
preservando sua biblioteca, fichas de leitura e outros materiais que compõem a seção de Coleção Especiais, na Biblioteca Comunitária. Ainda como estudante de Graduação e já no mestrado passava o dia inteiro no acervo lendo, fichando e pegando, a esmo, livros nas estantes para ler os comentários de Florestan acerca de suas leituras, já que ele fazia anotações às margens dos livros. Vale muito a pena, para quem se interessa por histórica intelectual, conhecer esse espaço dedicado a ele.
 
Por fim, deixo, aqui, o registro de enorme gratidão por tudo aquilo que Florestan Fernandes fez pelas Ciências Sociais e por tudo o que aprendi lendo seus livros e artigos.


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