04 de agosto de 2020

Nossas Letras

Coracoralinae

Minha esperança renasce quando vejo jovens pesquisadores de teses genuínas escolhendo uma das grandes vozes líricas da literatura brasileira para nomear descobertas da ciência - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 3 dias atrás - Sônia Machiavelli
Foto de:
Foto: G1
No Brasil onde títulos acadêmicos já foram forjados até por ministros, minha esperança renasce quando vejo jovens pesquisadores de teses genuínas escolhendo uma das grandes vozes líricas da literatura brasileira para nomear descobertas da ciência. Estou falando de Felipe Andrade e Cora Coralina. Ele, o cientista. Ela, a poeta goiana.

Desde o mês passado uma rã de menos dois centímetros e capaz de se equilibrar na ponta do nosso dedo indicador, foi batizada como Pseudopaludica coracoralinae. Seu canto forte, contrapondo-se às inacreditáveis dimensões, é ouvido a distância, sendo identificado pela singularidade.

Felipe, junto a pesquisadores da Unicamp, encontrou a nova espécie nas poças de um milharal, no interior de Goiás, terra da escritora que só conseguiu publicar seu primeiro livro aos 75 anos. No último dia 3 de julho, a prestigiosa “European Journal of Taxonomy” reconheceu o feito divulgando o estudo. Tem tudo a ver a poeta e o anfíbio. Em ambos, discrição física e voz potente; gosto pela terra e pelas águas; duas energias impossíveis de se manterem contidas.

Nos domínios da taxonomia, ciência que estuda a diversidade dos seres vivos,cada vez que se encontra nova espécie, o pesquisador tem o direito de batizá-la. Cora Coralina, que agora nomeou a rã cantora, desde 2005 é também nome de flor, a Hemerocallis coracoralinae, parecida com o lírio, de cor alaranjada e pétalas simples; e de peixe- o Xenurobrycon coracoralinae, de escamas prateadas, oriundo da bacia do Araguaia. Nada mais adequado e sensível, pois a poesia da goiana funda-se junto à natureza, bebe das águas do Rio Vermelho, indaga os mundos vegetal e animal, para então alçar-se ao humano, objeto de um olhar contemplativo e pleno de sabedoria. Tais características tornam Cora Coralina uma escritora a quem se busca para a fruição estética mas também para entender a vida em suas incontáveis manifestações.

Pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto, Cora Coralina nasceu em 1889 e morreu em 1985, na cidade de Goiás Velho. O gosto pela escrita surgiu na adolescência, mas ela somente conseguiu publicar em 1965, já septuagenária. Sua vida foi difícil. Muito jovem, fugiu grávida com um homem casado e bem mais velho, trocou sua Vila Boa de Goiás por São Paulo, deu à luz seis filhos, morou em quatro cidades paulistas, enviuvou, vendeu “de um tudo” para sobreviver : tecidos, doces, ovos, livros... Trinta e seis anos depois retornou à “casa velha da ponte”, um de seus motivos poéticos, onde continuou fazendo doces e literatura até o fim.

"O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais", primeiro título lançado, foi bem recebido pela crítica e pelos leitores, e antecedido por elogiosa e surpreendente avaliação de Carlos Drummond de Andrade. Um poeta já reconhecido internacionalmente apresentava ao Brasil uma inédita poeta do interior. Como os dele, os versos dela ecoavam sentimentos timbrados por um lirismo trazido à baila em

versos que já dispensavam rima e ritmo em favor da tradução de mundos interiores, como atesta o poema “Todas as vidas”:

“Vive dentro de mim/uma cabocla velha/de mau-olhado,/acocorada ao pé do borralho,/ olhando para o fogo./Benze quebranto./Bota feitiço…/Ogum. Orixá./Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo…// Vive dentro de mim/a mulher cozinheira./Pimenta e cebola./Quitute bem feito./Panela de barro./Taipa de lenha./Cozinha antiga/toda pretinha./Bem cacheada de picumã (...)// Vive dentro de mim/a mulher do povo./Bem proletária./bem linguaruda,/desabusada, sem preconceitos,/de casca-grossa, de chinelinha, e filharada. (...)// Vive dentro de mim/a mulher da vida./Minha irmãzinha…/tão desprezada, tão murmurada…/ Fingindo ser alegre seu triste fado.//Todas as vidas dentro de mim:/Na minha vida –/ a vida mera das obscuras.”

Mulher plural, ela viveu poetando nas pequenas pausas das lidas. Sua voz chega a este século XXI como o canto forte da Pseudopaludica, o perfume da Hemerocallis, o brilho do Xenurobrycon. Esse é o Brasil bonito de se ver e de se orgulhar.



COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal GCN e se comprometem a respeitar o Código de Conduta On-line do GCN.

Ainda não é assinante?

Clique aqui para fazer a assinatura e liberar os comentários no site.

Veja mais Textos

CLIMA EM FRANCA

25°
10°

MAIS LIDAS

COLUNISTAS

ECONOMIA Atualizado 1 hora atrás

  • Dólar Comercial:
    Data:
  • Dólar Turismo:
    Data:
  • Euro:
    Data:

LOTERIAS Atualizado 1 hora atrás

  • Mega-Sena: 2285
    Sorteio: 01, 07, 10, 12, 33, 42 Data: 01/08/2020
  • Quina: 5330
    Sorteio: 01, 04, 20, 25, 76 Data: 03/08/2020