25 de setembro de 2020

Nossas Letras

O reencontro de Govinda e Sidarta

Govinda abriu a mente, abriu mão dos sentidos e da razão e agora não via apenas um rosto onde antes reconhecera o velho amigo - Baltazar Gonçalves

Nossas Letras 22/08/2020

Depois de atravessarem para esta margem, o balseiro se despediu desejando ao passageiro a paz em seu caminho. Govinda atrasou o passo, o rio estava em silencio. Foi nesse instante, com a mão suspensa na direção do outro, que estremeci: o balseiro era o mestre Sidarta!

Govinda não disse uma palavra, o príncipe também não o reconhecera depois de tantos anos e mudanças sofridas. Então me aproximei e pedi que o balseiro beijasse minha testa. Faça isso e sigo meu caminho, teria dito Govinda.

O balseiro assim o fez, colou seus lábios suavemente na testa do outro e o beijou.

Estavam muito próximos quando Govinda abriu os olhos, talvez por isso tivera a impressão de ver sobre a face do balseiro um véu translucido em movimento. Era a pele imóvel do rio onde a paz se movimentava. É verdade que os sentidos nos enganam, como saber a verdade se nos aproximamos do real buscando sempre ter razão?

Govinda abriu a mente, abriu mão dos sentidos e da razão e agora não via apenas um rosto onde antes reconhecera o velho amigo. Govinda via o adolescente sem esperança pedindo dinheiro no semáforo; a prostituta sorrindo maliciosa escondendo o medo da solidão; o doente agradecendo o prato de sopa; o pai chorando a morte do filho; a filha chorando a perda do pai; cem mil almas perdidas para a covid; a mãe tremendo de felicidade com a recém-nascida nos braços; o presidente assinando sentença de morte; a clemência e o perdão; a transexual humilhada; o esposo traído; cinco mil amigos invisíveis no facebook; a esposa alcoólatra e ciumenta; o burguês preso no conforto do arranha-céu; o patrão sem operários; o operário sem emprego; o sangue nos olhos do assassino; a doçura no desejo dos amantes; a menina 10 anos abusada e grávida; o medo, o terror, a esperança; o princípio e o fim.

Govinda não respirava. Lágrimas não choradas cristalizam a visão. Olhe de novo. O véu que se move na face do balseiro revela um único e harmonioso rosto. Sidarta havia encontrado a iluminação. Eu também queria ficar com eles desse lado do rio, mas, quando Govinda abriu a boca para dizê-lo o som das palavras turvaram as águas.

Então Govinda se afastou, sentia a alma flutuar e precisava caminhar. No coração cabe o mundo quando o amor oferece abrigo. Com os olhos perdidos na doçura que emanava de Sidarta, baixou-se até o chão e curvou-se numa dobra que o fez menor que um barco de papel para beijar os pés do iluminado.

Depois disso, decidido Govinda partiu.

Ao entrar na mata, olhei pela última vez o rio, a canoa e o balseiro. Ali, onde a margem do mundo faz curva, Sidarta desapareceu.



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