25 de setembro de 2020

Nossas Letras

Livros que amenizam os dias de um mundo pandêmico

Como autor e ávido leitor de obras do gênero, posso afirmar que poucos recursos têm tanta capacidade de ajudar pessoas em momentos de dificuldade emocional quanto um bom livro - Mauricia Zágari

Nossas Letras 22/08/2020

No clássico de ficção Admirável mundo novo, o visionário Aldous Huxley imaginou uma sociedade distópica na qual a população dispunha da substância psicotrópica Soma, um comprimido que reduzia a ansiedade, o estresse e outros sentimentos negativos, deixando os indivíduos em um estado de relaxamento e alegria. Fico imaginando o que, em dias de pandemia, confinamento e distanciamento social, poderia ser um substituto pragmático para a Soma. E ouso concluir: livros de ficção.

Não, não é uma proposta pueril ou ingênua. Como autor e ávido leitor de obras do gênero, posso afirmar que poucos recursos têm tanta capacidade de ajudar pessoas em momentos de dificuldade emocional (como estes de COVID-19) quanto um bom livro — e de ficção.

A literatura, por si só, carrega a extraordinária capacidade de mexer com a mente e o coração. O ser humano precisa de histórias para a alma, assim como precisa de água para o corpo. A leitura enriquece o banco de dados do cérebro, movimenta os processos cognitivos e impulsiona nossa capacidade de pensar e raciocinar.

E, se adicionamos à literatura o elemento ficção, temos um salto exponencial naquilo que podemos experienciar. A ficção nos remete num átimo a eras e lugares sem o novo coronavírus. Ao ler um C. S. Lewis, desbravamos Nárnia; ao sorver um Gabriel García Márquez, viajamos ao passado colombiano; ao desfrutar de um Arthur Conan Doyle, participamos de investigações na Inglaterra vitoriana; ao consumir um Ferenc Molnár, nos tornamos garotos na distante Budapeste.

Ficção tem este poder: o de nos cronoteletransportar. Esqueça a máquina do tempo de H. G. Wells, pois livros de ficção são o melhor meio de levá-lo ao passado e ao futuro. Esqueça os vulcões da Islândia de Júlio Verne, pois livros de ficção são o melhor meio de levar você ao centro da terra.

É fato que os dias de pandemia do coronavírus têm levado muitos a um profundo sofrimento emocional. Trancados em casa, longe do contato humano, prejudicados financeiramente, temerosos por sua vida... o que não faltam são razões para abalar emocionalmente. A falta de paz não poupa ninguém.

Para piorar, a tendência dos angustiados, ansiosos e deprimidos por conta da atual situação é cravar os olhos nas telas de televisão ou agarrar os ouvidos aos noticiários de rádio, por onde só recebem notícias de mortes, desgraças, desatinos e controvérsias político-epidemiológicas. Surgem sentimentos agudos de raiva, desamparo, solidão e impotência, que levam muitos a, incapazes de lidar com a dor da realidade, correr para o álcool ou as drogas lícitas e ilícitas. Sem falar nas redes sociais, que acabam se tornando um polo de desabafos explosivos, fake news angustiantes e multiplicação exponencial da dor da alma.

A realidade é dura e estou imerso nela. Tenho empatia de todos os que, como eu, vêm se angustiando com tudo o que envolve as limitações deste momento. Na obra de Huxley, o uso perene do Soma acaba levando as pessoas à completa falta de capacidade para lidar com sentimentos como tristeza e angústia. Na vida real, prefiro crer que os livros de ficção são um dos caminhos mais saudáveis para se distanciar da crueza destes dias.

O estresse é causado por uma sobrecarga de vida real. Portanto, se a realidade é dura, por que não buscar refúgio na Grécia de Homero, na Itália de Julieta, na Espanha de Quixote, na Inglaterra de Jane Austen, nos oceanos de Herman Melville, no Rio de Janeiro de Machado de Assis? Um excelente caminho para fugir da ansiedade dos dias de coronavírus está ao alcance da mão. Basta abrir um bom livro de ficção e ser transportado a eras e lugares outros.

Com isso, quando voltarmos à realidade, além de termos passado um bom tempo repousando a mente da tristeza hodierna, ainda trazemos conosco a lembrança de que existem muitas outras realidades além da nossa — e, com isso, vem a certeza de que, quando a pandemia acabar, continuaremos a construir a nossa história.

Que, felizmente, não será de ficção.



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