20 de setembro de 2020

Nossas Letras

Lua cheia

Te convido, leitor, a abrir a porta ou a janela de sua casa, erguer a cabeça para o céu e colher momento bonito, que só precisa de olhos e coração para ser apreciado - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 29/08/2020

João tinha menos de seis anos quando chamei sua atenção para a lua cheia estampada num céu pontilhado de estrelas. Era Semana Santa, outono, quando nós, cá nos trópicos, vemos o satélite mais próximo e brilhante. Perguntei se conseguia enxergar o desenho de São Jorge com a espada. Sua resposta me surpreendeu e desconsertou: “Não, vovó, aquelas partes escuras são montanhas e crateras.” Pensei com meus botões que eu já tinha mais de oito quando me desiludiram por completo sobre a imagem do santo guerreiro.

Voltei a pensar nesse episódio ao tomar conhecimento de que no Japão as crianças associam as manchas lunares a um coelho. Se nossa mitologia a respeito de São Jorge nasceu com as Cruzadas, no Japão a presença do mamífero se explica por uma narrativa budista. Reza a lenda que um ancião pediu comida a um macaco, uma lontra, um chacal e um coelho. O macaco colheu frutas, a lontra trouxe peixe, o chacal caçou um lagarto. O coelho nada conseguiu. Então decidiu oferecer seu próprio corpo ao homem e pulou na fogueira à vista. Contudo, sequer se queimou, porque o velho era um “sakra”, um ”santo”. Para que as pessoas se lembrassem para sempre daquele gesto, a mão do iluminado desenhou a imagem do coelho na lua. Com boa vontade podemos imaginá-lo de orelhas levantadas socando um pilão para fazer “mochi”, típico bolinho de arroz. O coelho , em japonês “usagi”, tornou-se o símbolo de um evento que leva milhares a parques, templos e santuários na lua cheia. As pessoas se reúnem para apreciar o satélite prateado. O festival dura só um dia e se chama “Tsukimi”, traduzindo para nosso idioma, “Lua-Visão”. Existe há mais de mil anos e consiste em celebrar a beleza da lua cheia. As crianças são presenteadas com “mochi”, cujo processo de feitura é conhecido por “mochitsuki”, foneticamente idêntico a “mochisuki”, em português “lua cheia” (etimologia e semântica nos ensinam muito sobre o fenômeno dessas associações.) Quanto aos adultos, os mais sensíveis à linguagem poética criam haikais ou escrevem prosa lírica que oferecem a seus queridos. Como pensar isso no nosso mundo ocidental?!

Há 51 anos, já remoto tempo, o homem pisou na Lua pela primeira vez. Desde então foram contados dezenas de voos tripulados e não tripulados até lá. Físicos, biólogos e botânicos estudaram quilos de rochas lunares. Entretanto, mesmo tocada na sua concretude, ela continua nos encantando. E inspirando artistas como Caetano Veloso, compositor da linda “Lua de São Jorge”, cujos versos ando ensaiando à espera de vê-la íntegra assim que a tarde cair na próxima terça-feira: “Lua de São Jorge/Cheia, branca, inteira/Ó minha bandeira/Solta na amplidão//Lua de São Jorge/Lua brasileira/Lua do meu coração.”

Te convido, leitor, a abrir a porta ou a janela de sua casa, erguer a cabeça para o céu e colher momento bonito, que só precisa de olhos e coração para ser apreciado. Ou melhor, usufruído.Porque apreciado remete a preço, palavra custosa, e o espetáculo da Lua Cheia é inteiramente gratuito.



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