27 de novembro de 2020

Nossas Letras

O Moço Estóico

Permaneço estática, ensimesmada, quando, de repente, o barco inicia lenta volta sobre si mesmo, propiciando, a todos, vista total da deslumbrante paisagem - Irenita Alcântara

Nossas Letras 29/08/2020

Entrando naquele barco, não tinha a exata ideia do que veria ao visitar o Parque Nacional dos Glaciares. Eu estava animada por conhecer algo novo. O que eu não imaginava era o quanto isso poderia significar para mim.

Acostumada à vida nos trópicos, o frio intenso da Patagônia levou-me a tomar lugar na parte interna, aquecida. Ia no balanço suave, aconchegada em poltrona macia, ciente da demora para a chegada. Lá pelo meio da viagem, repentinamente, percebo alguns passageiros em movimentação frenética na busca de áreas exteriores. Algo interessante na paisagem chamava. Automaticamente, ajustei o capuz à cabeça, cachecol no pescoço e, câmara fotográfica preparada, forcei a porta contra o vento, atirei-me entre outros turistas e inundaram minha a vista lindos montes verdes e as serenas águas azuis do grande lago, salpicado de pedaços de gelo milenar. Pássaros exóticos da região sobrevoam seus ninhos nas encostas das montanhas que cercam as águas.

Lá longe, além do brilho dos picos nevados, a Geleira só se fazia adivinhar.

O frio e o vento levam todos novamente para a parte interna do barco. Entretanto, ao me virar em direção ao abrigo, surpreende-me figura curiosa: um jovem em pé, alto, corpo magro ereto, imóvel, a cabeça coberta com capuz sobre gorro que lhe deixava à vista apenas a região dos olhos. Parecia decidido a permanecer ali e enfrentar o clima hostil por todo percurso. Uma atitude estóica, penso. E apresso-me decidida em direção ao interior aquecido.

Após quase uma hora de navegação, soou nos alto-falantes aviso de que nos aproximávamos do Glaciar. Com ânimo triplicado, desta vez, correm todos para a porta de saída. Lá fora, fazendo bumerangues de seus próprios corpos, tentam abrir passagem em busca do melhor ângulo de visão; empurram com cotovelos, fingem não perceber que pisam pés alheios, falam entre si em voz alta, agitam braços, gritam apupos, pipocam fotos com suas câmaras de última geração, desesperados, todos, por enquadrar o máximo de tanta beleza. Tantas vezes acotovelada, outras tantas pisada e empurrada no meio desse torvelinho, empurro também, piso também , forço passagem também... Estranhamente, percebo que, como eles, eu me desculpo também, fazendo cara de “sorry!” também. Entre vitoriosa e contrafeita, vou obtendo sucesso... alcanço uma clareira e já ajusto minha câmara num ângulo desejável, quando, de repente, deparo-me novamente com a imagem do moço estóico , no mesmo lugar em que se encontrava antes. Não fotografava. Não disputava espaço. Talvez nem percebesse que de vez em quando se desviava sutilmente de algum empurrão.

Mantinha a mesma postura estática, mãos nos bolsos, olhar fito no horizonte, a face brilhante! Semblante indescritível, iluminado, agora, em adoração.

Como um raio, cai sobre mim a consciência do absurdo. Retraio-me, sinto-me imersa em vergonha de mim mesma. Atônita, ansiosa por sair dali, procuro caminho de volta entre a loucura coletiva; com esforço, alcanço uma abertura na multidão. Desconforto imensurável na alma, no corpo todo, que se anima apenas quando paro e volto-me, só para avistar novamente o rapaz; sorvo, então, da taça do êxtase que o envolve. E envolve-me também a beleza da alma contemplativa daquele ser, único digno ali de tão esplêndido espetáculo natural.

Permaneço estática, ensimesmada, quando, de repente, o barco inicia lenta volta sobre si mesmo, propiciando, a todos, vista total da deslumbrante paisagem



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