25 de setembro de 2020

Nossas Letras

Velar os mortos

O novo às vezes se impõe na mente como suco de caju no tecido branco. Quase impossível remover a marca - Sonia Machiavelli

Nossas Letras 05/09/2020
Sonia Machiavelli
Especial para o GCN
De algumas  coisas vistas pela primeira vez  podemos não  nos  esquecer. Dependerá do tamanho do impacto  ficarem  ou não  acomodadas num escaninho da memória até que algo  venha resgatá-las. O novo às vezes se impõe na mente como suco de caju no tecido branco. Quase impossível remover a marca.

Dentro dessa categoria de acontecimentos  que  nos habitam e não mudam de casa, tenho o velório como exemplo. O primeiro que vi nos meus parcos seis anos foi o de um velho sapateiro que tinha oficina e moradia  perto  de minha casa. Ele me destinava um sorriso bondoso quando eu passava pela sua calçada carregando o pão matutino da venda do Felão. Numa manhã solar, vi  movimento inusitado e entrei na casa do Seu Manuel.  No meio da sala repleta de gente,  sobre a mesa, num caixão roxo, cercado por quatro grandes velas, estava o meu amigo. De terno, coberto por véu  negro que afastava moscas. Entre as mãos inchadas, um ramo de cravos.

Mantinham-se próximas ao caixão  a mulher e a filha, que sufocavam  soluços  nos  seus lenços branquinhos. Tolhida pela surpresa da morte súbita, chegava gente com expressão triste estampada no rosto. Aos poucos alguns se  acercavam das duas mulheres, diziam  coisas como “meus pêsames” – expressão  que eu não conhecia. Alguém rezava  alto e um coro respondia depois  da  palavra “mistério”. Voltei para casa achando que o sol tinha perdido muito do seu brilho.  Custei a assimilar a realidade. Então morrer era daquele jeito!  Misturava sensações, sem que conseguisse transferi-las  para as  palavras.

O tempo voou e vieram  os anos 70, quando ninguém  mais velava seus mortos em domicílio. Avanço de civilidade, a cidade já tinha espaços para velórios. Neles vivi  o de familiares e amigos. Os abraços que diziam mais que centenas de palavras; os olhares que me conferiam força;  as pessoas que com sua simples proximidade emanavam empatia – tudo isso me foi  precioso. Ali estavam comigo, que sofria, seres humanos cuja presença  significava  velar um corpo sem vida e ao mesmo  tempo lembrar a vida que se exilara daquele corpo. Tristeza e dignidade, as palavras agora nomeavam os sentimentos.

Neste 2020,  que será lembrado como o ano da Covid-19, assim como o de 1918  foi o da gripe espanhola e o de 1347 o da  peste negra, a  necessária  proibição  dos velórios  criou  situação estranha: vemos nossos queridos vivos num dia e depois que a  indesejada das gentes  surge com sua foice no hospital, não mais. Eles parecem evaporar-se, sem nenhuma  cerimônia. Tudo fica ainda mais  cinzento, porque os rituais em nossa cultura continuam importantes nessa despedida. Mesmo  acreditando que nada  morre porque a vida é eterna, penso que  a  falta das velas, das flores, das boas palavras, das preces e da presença solidária  num momento de adeus  aproxima  o  derradeiro capítulo de uma biografia  a uma  frase sem ponto final. Não somos  balões  que explodem  no ar; somos velas ao vento até o fim.

Acho que por conta dessa minha particular percepção senti a  falta  de um lugar onde pudéssemos nos reunir para velar Martha Maria Neves Sericov,  mulher que guerreou muito e merecia uma  salva de palmas quando no  dia 30 de  agosto seu corpo foi cremado em Vila Alpina. Mantenho a sensação de que ela partiu sem que eu pudesse lhe dizer “tchau, Martha, descanse  em paz, ao som dos boleros e das canções russas  que seu amado João cantava”.



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