25 de setembro de 2020

Nossas Letras

Os convidados

Cozinhar tornou-se necessidade, enquanto a boa nova dos encontros sociais não chega. Talvez pelo meu explícito interesse, me enviaram alguns incríveis, de receitas que me deslumbraram e culturas que me surpreenderam - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 13/09/2020
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Navegando ainda em mar revolto, e nenhum céu de brigadeiro à vista, percebo que a oferta de vídeos de culinária na internet no mínimo triplicou. Cozinhar tornou-se necessidade, enquanto a boa nova dos encontros sociais não chega. Talvez pelo meu explícito interesse, me  enviaram alguns incríveis, de receitas que me deslumbraram e culturas que me surpreenderam.

Considerei um ganho  conhecer  outros modos  de buscar alimentos e preparar refeições. Vi  meninas  cozinhando  em   lugares  tão distantes  que demorei a descobrir que era a Tailândia. Não a turística, dos templos magníficos. Mas a das regiões do interior, como a zona rural de Mukdahan, na foz do rio Mekong, nordeste do país. No menu há peixes, caranguejos, frango, pato, porco. Carne de vaca, bem pouca. Os legumes são viçosos e há folhas que não conheço. Pimentas verdes e vermelhas, onipresentes. Dezenas de temperos. Arroz branco, sempre.

Tudo é apanhado na hora, colocado em peneiras de bambu e levado para o que se poderia chamar de quintal.  Ao ar livre, três grandes pedras fazem o papel de fogão. Uma jovem atiça  fogo nuns galhos secos e enquanto espera pelas labaredas, prepara os ingredientes. Pode ser jaca verde, colhida de árvore próxima, partida com afiada  machadinha pela qual eu daria meu reino se o tivesse. Alguns temperos são acondicionados em pacotinhos improvisados com  folhas. Um  líquido  espesso e escuro à base de tamarindo aparece do nada. O molho com muitas pimentas, alho e suco de limão já foi preparado.Um número impensável de combinações para assar, cozinhar ou fritar me surpreende. A criatividade é impressionante. Mas o que me deixou deveras admirada, conto a seguir.

A mulher que ia cozinhar não era tão jovem como as outras que eu vira. Mas o contexto de rusticidade era o mesmo. Ela trazia numa bacia pedaço grande de barriga de porco. Lavou a peça várias vezes e depois a apoiou numa tábua  para  fazer  aqueles cortes  característicos na pele. Em seguida besuntou-a com muitos condimentos de várias cores e texturas. Quando as chamas viraram brasa, colocou a carne na panela grossa, cobriu com água e mais especiarias. Enquanto esperava, sentou-se, um olho na carne e outro nas estripulias de um mico e quatro cachorros.

Quando a carne  ficou pronta,  eu pensei que  aquilo provocaria inveja  em  chefs  renomados.  Dourada, brilhante, os talhos bem nítidos, uma  obra de arte culinária.  A  tailandesa  a partiu em pedaços, colocou numa peneira de taquara e  levando-a a  tiracolo caminhou para lugar oposto ao do fogo. Eu tinha como certo que ela  iria oferecer  a iguaria   a  convidados  especiais.  Mas contrariando a minha percepção,  sentou –se no chão,  sobre folha de bananeira, e separou  um pedaço da  panceta para si. Colocou outro sobre pequena   pedra   e se expressou em bizarras  onomatopeias,  às quais  responderam os quatro cães que a  tinham assistido no preparo da comida. Então  os cinco degustaram com  apetite voraz aquela  delícia. Os cinco, não; os seis, porque a porção em cima da pedra era destinada ao mico que chegou em seguida.  



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