25 de setembro de 2020

Nossas Letras

Inveja

O relato foi feito há muito tempo, havia me esquecido, mas bastou recentemente reencontrar antigas ponderações feitas por Zuenir Ventura na abertura de seu livro Mal Secreto - Lúcia Brigagão

Nossas Letras 14/09/2020
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
A moça, que nem conhecia direito, apenas superficialmente, na roda onde o assunto Pecados Capitais veio à baila, aproveitou o ensejo e contou, em alto e bom som e para quem quisesse ouvir sua experiência com o tema.  E ela falou e eu escutei:

“Somente a teoria da reencarnação justificaria o motivo pelo qual eu me arrepiava toda, sempre, quando e cada vez que ela se aproximava de mim. Não, ela não cheirava mal fisicamente mas fedia, espiritualmente. Seu tom de voz me incomodava, a verborragia que apresentava toda vez que o destino nos pôs na mesma circunstância - vai ver que para me impedir de falar – foi notado por muitos que tiveram o azar de compartilhar algum ambiente simultaneamente conosco. Nunca gostei dela que, em contrapartida, me odiava. Com todas as forças, aliás. Tentou abafar minha voz, todas as vezes quando estivemos perto em alguma circunstância. Me fuzilava com o olhar, principalmente se eu me distraía. Media meu desempenho social e tentava desesperadamente acompanhá-lo. Melhor dizendo, imitá-lo. Tentava ser amiga, ser próxima, mas só de pensar na possibilidade de conviver mais intimamente com ela, minha pele encolhia. Era desprazeroso tê-la nas cercanias. Seria impossível qualquer aproximação, percebi. Talvez fosse nojo mesmo, não apenas rejeição. Não que eu fosse santa, mas em nome do respeito social, permiti que uma vez, apenas, ela entrasse em minha casa.  Foi numa festa à qual fora convidada por extensão.  Pois foi naquela, a única vez, entre milhares de outras semelhantes que promovi, que a comida tão esmeradamente preparada por mim, pessoalmente, azedou e foi jogada no lixo. Ela deve ter se regozijado, com o aperto que passei. Na ocasião, parte da turma que acompanhava a mútua ojeriza culpou o calor fora de padrão naquele mês tradicionalmente frio de pleno Inverno. A maioria, porém, que a tinha visto esgueirando-se sorrateiramente pelos cômodos da casa para ver, medir, avaliar e julgar tudo, atribuiu ao olhar invejoso e satânico o motivo do incidente que botou fora o delicioso vatapá que eu havia pessoalmente preparado para os convidados.  É mútua a antipatia e minha sábia avó diria que esta particular pinimba, sob a luz da doutrina espírita, seria resultado de incidente ocorrido em vidas passadas. A bem da verdade, tentei conviver civilizadamente com ela mas, confesso, não consegui. A rejeição por ela foi mais forte que eu. Hoje só posso rir das suas tentativas de elevação social, de sua obsessão pela notoriedade, da busca pela citação de seu nome. Certa vez apareceu na cidade, no tempo de jornal impresso em papel, um rapaz que tentava lugar entre os colunistas sociais locais. Trabalhador, esforçado. Se encantou comigo. Pediu que eu fosse a capa do jornal dele, que estava pronto, só queria que eu fosse a foto de boas-vindas... Tentei dissuadí-lo. Ofereci-me como embaixatriz para perscrutar mulheres bonitas, interessantes,  permeáveis ao métier de exibição... Qual o quê. Insistiu na minha pobre pessoa, botou embaixadores para intermediar e, num sábado calorento que eu estava de rabo de cavalo, com saída de banho mais colorida que pavão, ele bateu à minha porta, insistiu novamente, meus parentes intervieram e ele fez minha foto, que inaugurou suas edições.  Pois ela virou uma sarna em cima dele. Dias depois começou o assédio, ele pessoalmente me contou. Pediu, insistiu, ofereceu dinheiro, deu presentes, até que ele, que tentava pular fora, sucumbiu. E ela foi para a capa. Continuo fugindo dela, disse, mas ela não me esquece! Mesmo sem convivência, tornei-me tema recorrente de suas conversas desabonadoras e alvo de seu julgamento maldoso...”

O relato foi feito há muito tempo, havia me esquecido, mas bastou recentemente reencontrar antigas ponderações feitas por Zuenir Ventura na abertura de seu livro Mal Secreto,  que o relato revoltante voltou-me à memória. Zuenir afirma que a Inveja é o Pecado Capital mais aviltante de todos. “O Ódio espuma. A Preguiça se derrama. A Gula engorda. A Avareza acumula. A Luxúria se oferece. O Orgulho brilha. Só a Inveja se esconde.”  Cuidado, portanto: não há “Inveja Branca” ou “Inveja Boa”. Inveja é inveja: destrói, mata, aniquila, abate, extermina, destroça, devasta e arrasa. E o Invejoso é sempre uma Anaconda... Fuja dela!



COMENTÁRIOS

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  • Felipe P
    14/09/2020
    Gostei do texto, boa contribuição.
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