31 de outubro de 2020

Nossas Letras

Aqui e agora

Não fico muito preocupada com o futuro, embora ninguém ainda tenha me convencido de que ele a Deus pertence - Lúcia Brigagão

Nossas Letras 25/09/2020
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Gosto muito do presente, do hoje, do aqui e agora e de viver de modo ligeiramente inconsequente.  Não fico muito preocupada com o futuro, embora ninguém ainda tenha me convencido de que ele a Deus pertence. Acredito piamente que cada um determina o seu, sem interferência divina. Já diziam os chineses, e muito antes de qualquer religião cristã, que tomássemos cuidado com o que plantamos hoje pois seremos obrigados a colher os frutos depois. Isso sempre me pôs uma responsabilidade danada nos ombros.  Olho o passado com olhos abertos e, se inventassem uma máquina de voltar no tempo, não seria voluntária para a experiência, não embarcaria: e o medo de ficar lá e ter de começar tudo outra vez? Natural que não tenha por hábito comparar a vida de hoje com a de ontem e achar estupidez fazer prognósticos: a experiência demonstra que há variantes demais interferindo nos resultados. Em quaisquer resultados do futuro.

Nostalgia, saudades, melancolia volta e meia me pegam. Pessoas, situações, experiências, momentos, encontros, afetos, práticas, conversas, desafetos, dificuldades, sucessos e derrotas ... de repente se tornam fantasmas que me assombram. De um modo peculiar: será que mostrei a imensidão do meu amor às pessoas que já partiram? Será que contornei de forma amadurecida as saias -justas  quando elas surgiram? Saboreei de verdade o prazer de cada experiência gostosa da minha vida? Extraí todo o suco das delícias armazenadas nos potes dos meus afetos?  Fui leal nos meus sentimentos?  Cumpri com desvelo minhas obrigações?  Substituí por delicadeza a violência brotada na maioria das situações em que me vi desagradada?  Evitando chorar ou lamentar leite derramado, o resultado dessas divagações são estímulos para aqui no presente eu amar mais, chorar mais, viver mais, correr mais, fazer mais, sonhar mais. Agir mais.  Correr o risco de errar mais, porque não? Vou observando as marcas deixadas pelos caminhos, olhando meus pés deixarem rastros  no chão, sem pensar muito lá na frente, onde os contornos se tornam imprecisos por incapacidade da visão humana.  

Impossível comparar vidas.  Irritante comparar gerações: é tediosa a expressão “no meu tempo...”.  Entretanto, no confronto da vida que temos hoje com a de anos passados, dá para ter a certeza de que se muita coisa boa apareceu, muitas outras desapareceram.  Encabeçaria a lista do “Viver hoje ficou melhor por causa...” com as facilidades disponibilizadas no cotidiano da mulher: O.B; abolição de cinta-liga (ainda fetiche na hora H); admissão dos homens na cozinha; desobrigação de usar combinação e anáguas engomadas; anticoncepcionais; máquina de lavar louça; desaparecimento do protótipo mulherzinha - elo perdido na escala de desenvolvimento feminino. A tecnologia evoluiu; a comunicação se sofisticou; os meios de transporte estão mais ágeis e eficientes; as viagens - curtas ou longas - ficaram ao alcance de todos; o mundo encolheu; algumas doenças se tornaram menos ameaçadoras, o conforto se tornou atributo mais valorizado que a boniteza e a boniteza – enquanto ítem fundamental na avaliação do ser humano – perde feio para  delicadeza, ética, moralidade, sinceridade.  Imagina só voltar atrás no tempo e ficar sem Wi-fi. Pense na falta que a tela de 42 polegadas pode fazer na hora de ver futebol.  Lembre-se da dificuldade antiga de fazer um interurbano, pegue o celular, disque alguns números e fale com alguém, em algum país do outro lado do Atlântico...

Bom, mas pense na antiga formação da Câmara Municipal quando composta por pessoas idealistas apenas interessadas no bem-estar público e que não ganhavam um tostão: era honroso ser escolhido e a tarefa encarada como  prestação de serviços. Lembre-se dos gloriosos desfiles de rua dos antigos 7 de Setembro, quando estudantes disputavam a honra de carregar a bandeira do Brasil. A data era para ser comemorada civicamente e não aguardada como apenas mais um feriado e sinônimo de ócio. Vê se sua memória registrou a elegância e seriedade dos professores e professoras dando aulas, lá longe nos anos. Verifique se seus filhos sabem cantar o Hino Nacional corretamente e se reconhecem alguma música cívica. Faça esforço para se lembrar de como era dormir com a porta da frente de casa destrancada. Pesquise como seus filhos e amigos se comportam dentro das salas de aula – do maternal à universidade. E, ao cruzar com qualquer pessoa – na rua, nas lojas, mesmo caminhando – diga-lhe “bom dia!”, vê se você tem a sorte de ouvir uma resposta. 

Saudades do século XX...



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