24 de outubro de 2020

Franca

ESPERANÇA

São 16 anos, 6 meses e 4 dias sem notícias do meu filho

'Eu rezo todos os dias para poder ao menos sonhar com ele”, relata mãe de francano desaparecido com 14 anos, em 2004.

Franca 27/09/2020
Kaique Castro
da Redação
Dirceu Garcia/GCN
Tereza Cristina Fernandes Alvez, de 61 anos, que nos últimos 16 anos, não teve nenhuma pista sobre o paradeiro do seu filho
Você já imaginou dormir, ter um sonho ruim e não acordar? E nesse pesadelo seu filho de apenas 14 anos desaparece após voltar da escola e você nunca mais tem uma notícia? Não sabe se ele está bem, se está se alimentando, passando frio, ou até mesmo sequer saber se está vivo ou morto?

Esse pesadelo é real e se repete todas as noites na vida de Tereza Cristina Fernandes Alvez, de 61 anos, que nos últimos 16 anos, não teve nenhuma pista sobre o paradeiro do seu filho, Deivid Antunes Alves, que em 2020 completaria 30 anos.

Tereza lembra como se fosse hoje o traumatizante dia 22 de março de 2004, quando seu filho mais novo voltou da escola, trocou de roupa, disse que ia brincar com amigos e nunca mais foi visto.

“Eu estava trabalhando em uma fábrica de calçado. Quando cheguei em casa, já perguntei por ele. Não vi ele e perguntei para minha filha do meio onde ele estava. Ela disse que ele tinha ido brincar e que estava estranhando a demora. Ele não tinha esse costume de ficar tanto tempo. Nisso, eu já fiquei preocupada e comecei a procurá-lo. Mas ninguém sabia para onde ele podia ter ido. Ele sumiu por volta das 13 horas e depois disso, nunca mais tive qualquer informação do paradeiro do meu filho”, disse, emocionada, a mãe de Deivid, que além do garoto tem mais quatro filhos, dois deles sobrinhos que ela adotou.

Após o garoto desaparecer, Tereza e seu marido, com ajuda de vizinhos, começaram as buscas, que se dão até hoje. O pai de Deivid morreu sem ver o filho novamente. Ele não resistiu a problemas no coração e faleceu em janeiro de 2019.

“Procuramos até anoitecer. Eu fui na delegacia e eles não quiseram fazer o boletim de ocorrência por causa do tempo de desaparecimento, mas como eu estava muito nervosa eles acabaram cedendo e fizeram o BO. Não tive muito ajuda da polícia e da imprensa, o caso não foi muito divulgado no início. Foi muito difícil, corremos atrás de tudo, procurando informações em Franca e toda região. Tivemos muitas pistas falsas que acabaram atrapalhando nas buscas e investigações. Cheguei a passar três dias chuvosos na Vila Gosuen, onde o pessoal chama de ‘puxa faca’, porque um rapaz disse que havia dado bolacha para ele, mas infelizmente eram pistas falsas”, disse Tereza.

Essas pistas falsas faziam o coração de mãe acreditar que era o adolescente e, por isso, ela percorreu incontáveis quilômetros em todo o Estado. Panfletos foram colados em todas as cidades que ela visitava.

“Eu não sei o que pode ter acontecido com ele. Estávamos muito bem. Até um dia antes do desaparecimento, meu marido chamou a nossa atenção, porque fazíamos bagunça na sala. Não sei o que pode ter motivado ele a fugir.”

Foram dez meses de buscas intensas. Por sorte, o patrão na época de Tereza entendeu o momento que ela e a família passavam e a ajudou da melhor maneira possível. Para Tereza, o apoio dos vizinhos naquele momento foi essencial para que eles não passassem nenhuma necessidade a mais.

“Meu patrão era muito humano. Fiquei 45 dias sem comer, dormir e até mesmo tomar banho. Eu não conseguia fazer nada. Meu filho mais velho também trabalhava na mesma empresa. Nosso patrão não deixou descontar um centavo pela nossa ausência, ele entendeu o que estávamos passando. Quando eu voltei a trabalhar, percebi que ainda não estava em condições e ele me ajudou novamente. Somos muitos gratos a ele. Mas é difícil. A cabeça não fica naquele lugar, é muito difícil”, relembra Tereza.

Tereza ainda conta que após o desaparecimento de Deivid, sua vida acabou. A única coisa que ela consegue fazer é sobreviver. Ela não consegue ir a uma festa e não lembrar do filho. Viagens também nunca mais foram as mesmas.

O desespero da mãe aumenta por não ter uma notícia do filho. Para ela, a falta de informações é o pior castigo desse pesadelo sem fim.

“A saudade dói, ela é terrível. Só que a falta de notícias me mata por dentro. Porque, se você sabe o que aconteceu, é mais confortante. Se a pessoa morre, você tem o luto e o sofrimento, mas você pode chorar no caixão e quando a saudade bate pode ir no túmulo. Mas agora eu vou fazer o quê? Vivo um luto de uma pessoa viva, eu vivo um luto diário por não saber o que aconteceu. Acredito que os problemas do coração do meu marido foram as angústias vividas por falta de informação”, se emociona Tereza.

A mãe diz acreditar que o filho ainda esteja vivo, mas que de vez em quando pensamentos ruins vêm à sua mente. Ela tenta sempre pensar positivo e ainda tem esperanças que o filho entre pela porta de casa.

“De vez em quando os pensamentos ruins vêm, mas logo eu penso positivo. Eu ainda creio que esteja vivo e voltará. Se um dia eu perder essa esperança de ele voltar, eu não tenho mais motivos para viver. Eu vivo para ver ele voltando por essa porta.” A família é moradora há mais de 20 anos nos predinhos do Parque Vicente Leporace.

“As pessoas me perguntam como estou, eu sempre respondo que estou bem. Mas bem por fora, porque por dentro é outra coisa. Eu sempre falo que a gente supera quase tudo nessa vida, mas quando é com um filho, aí é diferente. Filho é um amor que não tem explicação.”

Nos mais de 16 anos do desaparecimento do filho, Tereza hoje faz parte dos “Mães da Sé” (ONG que trabalha para encontrar pessoas desaparecidas). E mesmo após 16 anos, Tereza acorda todos os dias e conta um dia a mais sem notícias do filho.

“Eu acordo de manhã e já penso. Hoje faz seis anos, seis meses e quatro dias que ele desapareceu. À noite, também é o último pensamento. À noite, eu peço a Deus para pelo menos poder sonhar com ele.”

O caso de Deivid é semelhante ao de Wesley Alves Filho, de apenas 13 anos, que está desaparecido desde o dia 28 de agosto deste ano. Tereza diz saber todos os sentimentos que Camila, mãe de Wesley, tem sentido. Ela finalizou falando que reza todos os dias para que Wesley seja encontrado o quanto antes.



COMENTÁRIOS

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  • Elizabeth Maria Borges Rodrigues
    27/09/2020
    Comprei um produto estava em falta ñ recebi o valor pago de volta .se comprar um outro produto de um maior valor?
  • Carlos
    28/09/2020
    Há casos em que a pessoa é visada e rapitada PARA RETIRADA de ORGÃOS PARA O FILHO DE OUTRAS PESSOAS QUE PAGAM PARA CONSEGUIR UM ORGÃO DE TRANSPLANTE SEJA CORAÇÃO, RIM OU QUALQUER OUTRO. Me lembro de um rapaz no shopping que alguém colocou um tipo de algodão com Éter no nariz, ele desmaiou, levaram-no para algum lugar e dias depois apareceu no mesmo shopping mas percebeu que estava sem um rim....Os pais devem ficar sempre vigilantes aos seus filhos...
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