31 de outubro de 2020

Nossas Letras

Vida e morte

Sensação indescritível é a de salvar uma pequena vida vegetal. Ou animal. Vida é vida. Pensei nas vidas humanas que se perdem ou se salvam - Sônia Machiavelli

Nossas Letras 03/10/2020
Sônia Machiavelli
Especial para o GCN
Dia desses, voltando para casa ao entardecer, assim que retirei a máscara fui aguar o meu jardim porque o calor estava de rachar. Logo que abri a torneira e acionei o esguicho fui tomada por frustração e tristeza. Entre um gesto e outro, o olhar captou dois vasinhos de lantana que eu havia deslocado do quintal. As plantas estavam murchas. Uma, com folhas e flores completamente ressequidas. Outra ainda mantinha algum verde e apenas um buquê dos muitos que me haviam encantado.

Se você, leitor, não conhece essa espécie vegetal, vale a pena presentear-se com uma. As flores delicadas se abrem numa cor que vai mudando com o passar dos dias. O nome botânico da minha é lantana camara. Seu botão parece uma minúscula pinha, as flores de início são roxas, depois vão surpreendendo com um rosa-choque e alguns tons de amarelo. Por isso em vários lugares do país o nome fantasia é flor arco-íris.

No Sul a chamam cambará, palavra herdada dos índios e que significa “mato que cura”. Parece que é terapêutica para alguns males humanos, ignoro quais sejam. Por outro lado, pode matar animais conforme a quantidade ingerida. Como nos pampas gaúchos as lantanas se desenvolvem formando touceiras, caso uma rês coma demais dela corre risco de ser envenenada.

O nome “cambará” vai lembrar aos amantes da literatura brasileira um personagem inesquecível de Érico Veríssimo, o Capitão Rodrigo Cambará, autor de frases que às vezes eram de efeito e outras de contido lirismo: “Quem canta refresca a alma/ Cantar adoça o sofrer/ Quem canta zomba da morte/ Cantar ajuda a viver.” Gosto de trocar às vezes o verbo cantar por escrever.

Retornando às minhas flores, assim que as vi morrendo me enchi de culpa. Tinha sido por causa de mudança de lugar que elas estavam naquele estado. Se antes ficavam expostas ao sol da manhã no quintal e depois usufruíam da meia-sombra, agora permaneciam o dia todo sob os raios escaldantes da primavera tropical.

Peguei os vasos, levei para lugar fresco e os mergulhei numa bacia cheia de água gelada. Uma hora depois meus olhos percebiam o efeito. As folhas iam se reidratando devagar, mas era evidente que estavam absorvendo o líquido. Mais três horas e ficou claro que ressuscitavam. De manhã, ao acordar, fui direto ver como estavam e me deparei com elas vivíssimas. Até algumas das flores haviam recuperado o frescor. Fui tomada por grande sentimento de alívio. Sensação indescritível é a de salvar uma pequena vida vegetal. Ou animal. Vida é vida. Pensei nas vidas humanas que se perdem ou se salvam.

Entramos em outubro com mais de um milhão de mortos pelo coronavirus no planeta. De repente, e mais uma vez, imaginei a luta dos médicos e enfermeiros nas alas Covid de hospitais do mundo inteiro. Acho difícil traduzir em uma palavra a emoção deles quando dão alta a um paciente, devolvendo-o à Vida depois de o terem visto pisar o umbral da Morte. Alegria, arris-co. A mais pura que se possa imaginar.



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