31 de outubro de 2020

Nossas Letras

Professores

Lá pelos anos 50, 60, já existia o Dia do Professor, que era comemorado com pompa, circunstância e delicadeza, quase em silêncio, que a escola era templo de sabedoria e o funk não existia - Lúcia Brigagão

Nossas Letras 09/10/2020
Lúcia Brigagão
Especial para o GCN
Dr. Valeriano Gomes do Nacimento. Dr. Nicanor Xavier da Cunha. Dr. Pedro Nunes Rocha. Dr. Alfredo Palermo. Dr. João Alves Pereira Penha. Dra. Maria Ignês Freitas de Vilhena. Dra. Tereza Balduino Ortiz Cintra. Dra. Maria Cintra Nunes Rocha. Sra. Carlina Ri
Naquele tempo, lá pelos idos dos anos 50, 60, já existia o Dia do Professor, que era comemorado com pompa, circunstância e delicadeza, quase em silêncio, que a escola era templo de sabedoria e o funk não existia. O IETC – Instituto de Educação Torquato Caleiro brilhava. O quadro docente era formado por estrelas ofuscantes, de notório saber todos, a maioria com título de doutor, apropriadamente colocado antes do nome cristão. No dia 15 de Outubro todos os alunos, e de cada período que eram apenas dois, se dirigiam ao salão ou mini teatro, palco de comemorações cívicas, formaturas, festividades em geral e aulas do orfeão, que eventualmente servia para exames orais, até para as eleições do Centro Acadêmico 18 de Março. Ou para algumas exposições de trabalhos estudantis. Era para a comemoração, onde se apresentavam os artistas-estudantes: poesias, cantos, danças, discursos. Naquela escola os alunos circulavam pelos corredores supervisionados pelo prof. Geraldo Taveira e por d. Odette Ribeiro, cujos olhares acalmavam espíritos rebeldes. Para apascentar de vez ou silenciar o pátio de cheio de alunos no recreio, em ebulição ou folga eventual de aulas, tinha o Prof. Júlio D”Elia, cuja aparição era água na fervura. Muitos funcionários como dona Maria da Glória, sêo Zé Pelizaro, sêo Aldo Pucci, Canhoto e Major tinham funções específicas como, por exemplo, carimbar diariamente nossas cadernetas escolares para provarmos nossas presenças para os pais. Ou controlar que os meninos entrassem pelo portão dos meninos, as meninas pelo portão das meninas... Quando os professores entravam em aula, nós nos levantávamos e o silêncio caia como lona sobre nossa fervura. Só nos movíamos quando eles liberavam: “Podem sentar!”. Silêncio durante a chamada – em todas as aulas do período – para conferir presenças ou ausências. Sim. Enforcávamos aula, mas ai de nós se fôssemos descobertos. Sim, tinha um ou outro aluno mal educado, mas levava advertência e posteriormente suspensão das aulas, quando então perdia todas as atividades escolares além, claro, do conhecimento. Naquele tempo os pais eram responsáveis por lições de polidez e boas maneiras – aprendíamos em casa o uso de expressões tipo com licença, por favor, desculpe. Na escola os professores se encarregavam apenas da educação formal, razão pela qual esgotavam o conteúdo do planejamento de nossa aprendizagem lá pelo fim de outubro, embora as aulas fossem até 15 de dezembro. Sem moleza. Eram apenas encarregados de nosso conhecimento. Algumas aulas eram mais leves que outras, fosse pela simpatia do professor – ou professora – embora o conteúdo fosse pesado. Ou porque a matéria nos era mais agradável, professores à parte...

Sabíamos cantar os hinos brasileiros – e o fazíamos com orgulho, reverência, respeito, até porque Lúcia Gissi Ceraso, a professora de mão de ferro e coração em forma de Brasil, era uma fera... Líamos com voracidade livros da literatura brasileira e da mundial. Dona Amélia, a bibliotecária, um dia substituída temporariamente por Maria de Lourdes Alarcon, vigiava nossas leituras: quando quis ler Jubiabá, de Jorge Amado, ela não deixou. Insistiu que eu lesse um dos volumes da Coleção das Moças. Ela não deixou eu ler o que queria, eu não li o que ela quis... Desfilávamos nas datas cívicas, empinando o peito e batendo forte o pé direito no chão. Era questão de orgulho manter a distância correta entre desfilantes, mais o alinhamento do nosso batalhão. Nos 7 de Setembro, Helena Barbosa e Pedro Morila Fuentes, depois dos desfiles de rua, enchiam o gramado do Palmeirinha com alunos e as arquibancadas com pais e autoridades para a apresentação de evoluções e demonstrações de ginástica. Dois líderes fantásticos. Já nos anos 80, minha ex-professora de Filosofia Mary Spessotto Pimenta se aposentou e, fiquei orgulhosa, me indicou para sucedê-la na cadeira de Filosofia no mesmo IETC, onde eu fora aluna. Período maravilhoso quando troquei o banco escolar pela cátedra, foi marcado pela proximidade com alunos que marcaram minha vida, muito mais que eu a deles, acredito.

De lá, para cá, vi a carreira de professor ser vilipendiada, degradada, vi pais delegando aos professores a tarefa de tornar seus filhos aptos a conviver com outras pessoas mas sem tempo para fornecer conhecimento e cumprir sua função pedagógica. Vi os professores perderem luz e competência, preocupados em ensinar aos alunos o básico da convivência humana, sem tempo para oferecer alimento para o espírito ou para o intelecto. Há muitos que ainda lutam. Que obstinam. A estes resistentes, meu cumprimento pelo Dia dos Professores, mesmo sob o triste panorama escolar do século XXI, neste particular 15 de Outubro. Que eles sejam abençoados e que nossos antigos professores nos abençoem, sempre. Minha gratidão a todos eles.



COMENTÁRIOS

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  • Ronaldo Aloísio da Silva
    10/10/2020
    Estudei vários anos no CEDE , foi um período muito bom , pois tve grandes professores como , Bertli ,Abegair, Sérgio Leça , José Rosa , Vitão , Elza Palermo , Netto , Nocera , e outros gigantes da Educação ,sem nostagia , infelizmente ela mudou e sem entrar no mérito , a tecnologia chegou , dizem que os valores também mudaram ,esses não deveriam (...) jamais . Agradecimentos eternos aos grandes Mestres do passado e no presente o professor é insubistituível , nem a tecnologia conseguiu vencê -lo . Parabéns por todos os dias !!
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